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Uretrite: contos de Fonjic
 

A filha da faxineira

 

 

            É engraçado como os adultos fazem, às vezes, as maiores bobagens do mundo, brigam por coisas tolas e sem sentido. Eu tinha oito anos e lembro bem das brigas infantis lá em casa. Minha mãe por algum motivo achava um insulto morar com a faxineira e a filha dela na mesma casa, o que me deixava um tanto revoltado com minha mãe, afinal não havia nada demais nisso.

            O nome da menina era Laura, tinha uns quatro anos e eu achava ela boa companhia. Apesar da diferença de idade, brincávamos um tanto juntos e confesso que tínhamos muita coisas em comum, éramos bem parecidos, até os olhos eram iguais.

            Uma vez comentei isso no almoço, o quão éramos parecidos, e vi meu pai fechar a cara, como se um nuvem cinza passasse por ele. Minha mãe largou os talheres e foi para a cozinha, chorando. Depois, quando eu estava longe, começaram a discutir, de novo. Eu ficava incomodado com isso, com essa frivolidade dos adultos. Talvez por isso, por verem que eu me incomodava, evitavam discutir isso na minha frente.

            Laura ia no mesmo colégio que eu e era quase como se fosse da família. Morava ela e a mãe conosco porque ela nascera sem pai, coitadinha, um ano depois da mãe dela vir trabalhar lá em casa.

            Minha avó frequentemente tomava parte nessas discussões. Uma vez ouvi ela e minha mãe discutindo sobre isso, minha mãe achava um insulto morarem todos juntos, dizia que se sentia humilhada, mas minha avó dizia que era melhor assim, era preciso preservar a família e esquecer o passado. Era uma discussão sem sentido.

            Com o tempo os atritos foram crescendo e no final a faxineira já não fazia mais a faxina lá em casa, mas continuaram ela e a filha morando lá nos fundos, pois eram quase da família.

            Quando eu tinha uns treze e Laura uns nove passamos certa tarde brincado de luta livre. É claro que eu era muito maior, mas a deixava ganhar às vezes. Depois, exaustos, deitamos na cama de meus pais.

            Quando meu pai chegou e viu aquilo teve um ataque. Gritava, me xingava, me batia, ou melhor, corria atrás de mim para tentar me bater, visto que eu já saíra voando dali.

            Depois, já de noite, com meu pai mais calmo e minha mãe trancada no quarto chorando, ele veio ter uma conversa comigo. Me repreendia duramente, dizia que era errado, que eu jamais deveria me aproximar dela. Eu tentava me explicar, dizendo que não fora nada disso, mas ainda assim o tabú persistia. Parecia haver algum parentesco inexplicável e proibido.

            Por fim me mandaram estudar na cidade de meus avós e lá morei por um tempo. Nunca pude entender aquela histeria que havia lá em casa. Seria tudo mais fácil se eles pudessem ver o mundo por olhos de criança.

 

 



 Escrito por Fonjic às 09h24 [ ] [ envie esta mensagem ]



Um clássico

            Os heróis precisam de dois tipos de prostitutas para coroarem sua carreira de glória: as mulheres de pernas gordas e cinturas finas que lhes aquecem as camas nas noites frias de inverno insular os escritores senis e aduladores que descrevem os feitos viris diurnos.

            Desses dois tipos ele tinha asco, uma espécie de nojo infantil que lhe vinha à tona, mas que sabia imprescindível à sua sobrevida. Quanto às mulheres, muito embora lhe enojasse o vai e vem com que elas se dispunham para ele, ele sabia que não poderia viver sem diariamente deitar a boca entre suas pernas e sugar dali o suco fértil da vida.

            Já os escritores, embora ele lhes precisasse para enaltecer seus feitos, tinha ódio ainda maior, com repulsa ainda maior. Se visse um escritor pela frente lá ia e lhe metia a mão na cara.

            Ele andava pelo centro da cidade com sua enorme espada medieval às costas, trajando suas roupas bárbaras, estilo Conan, o cimeriano. Estava na cidade havia muito mais tempo do que a memória conseguia lembrar, em busca da mulher perfeita.

            Mas nada para ele era bom e puro o suficiente. E quando era puro, o era demais.

            E lá ele ouvia uma voz feminina cantando uma canção e corria de pronto com a espada em pé. Mas depois de uns tragos, bate-papo e quinze minutos de intimidades ele se decepcionava e via que novamente se enganara.

            Era difícil a vida moderna, era impossível o heroísmo em tempos assim.

            De outra feita ouvia um grito feminino e ia novamente atender com a espada na mão. Esmagava com fúria impiedosa o inseto que consistisse ameaça e novamente atacava oferecendo bebidas e intimidades.

            Nova decepção.

            E, de repente, ele se virava e logo se surpreendia com mais um deles, mais um daqueles escritores o observando e tomando notas.

            “Filho da puta”, gritava, e saía correndo atrás do sujeito que desesperado largava caneta, papéis e tudo mais em sua fuga.

            E assim ele viveu muitos e longos anos, sem que jamais sua busca tenha encontrado fim nem seu espírito encontrado descanso. Já velho e amargurado, cego pela catarata, andava pela praça quinze à esmo lamentando as fraquezas da velhice e a tristeza da idade, que nem a espada lhe permitia mais erguer.

            Morreu então numa sarjeta e foi recolhido pela população local, que lhe rendeu grandes festas e homenagens, num banquete que durou quinze dias e onde mil trezentas e noventa e quatro mulheres foram convocadas para entreter os convidados com seus corpos bezuntados à óleo. Os poetas e bardos alardearam ao mundo todo seus grandes feitos e os escritores se puseram enfim a compor o grande épico sobre ele. E assim pode ele, em sua glória, ser profanado com os elogios daqueles a quem mais odiava.



 Escrito por Fonjic às 17h20 [ ] [ envie esta mensagem ]



Zapeando

            Os porquinhos rosados andavam felizes pela estrada florida quando surge, num salto, na frente deles, o senhor da guerra, com sua espada de sangue eterno, que nunca seca nem pára de jorrar. Antes que o primeiro porquinho possa esboçar qualquer reação ele desfere o golpe rápido, partindo o corpo ao meio e espalhando sangue e tripas pela estrada de terra, ao mesmo tempo que esmaga o crânio do segundo porquinho. Um terceiro porquinho tenta ainda fugir pulando de um barranco apenas para ser atravessada pela adaga cruel do senhor da guerra. Ele esboça um sorriso contemplando a matança ao seu redor e parte em nova jornada em busca de mais vítimas.

            As crianças que até então viam felizes a história dos porquinhos rosados parecem agora em choque, sem reação. Pego o controle e decido mudar de canal.

            Num programa de debates dois homens já muito velhos falavam sobre a liberdade sexual da mulher e o direito feminino ao próprio corpo. Que esdrúxulo, eu penso, como esses caras podem se arrogar ao direito de vir à tevê falar às mulheres sobre o direito delas ao corpo delas? O que havia de errado nessa tevê hoje? Mudo de canal novamente, terceira chance...

            Finalmente algo agradável de se ver. Uma praia, com quatro mulheres lindas de biquíni conversando. Neste frio árido do inverno nada melhor do que se aquecer um pouco vendo um programa desses na tevê. Mas, de alguma forma, o áudio parecia ter alguma espécie de problema, porque elas conversavam sobre disfunção erétil e as últimas novidades em medicamentos e próteses para disfunção erétil no homem.

            O que era isso? Um complô? Como eu poderia curtir aquele visual paradisíaco com essas mulheres falando sobre assunto tão amedrontador? Elas deveriam estar falando de seus corpos suando enquanto faziam ginástica de lingerie, ou algo assim.

            Mudo de canal pela terceira vez. Parece uma espécie de filme, um juiz corrupto na suprema corte protege um banqueiro mafioso, que desvia dinheiro para o exterior, compra sessenta fazendas na Amazônia para desmatar e especular com a terra, se apropria do dinheiro de fundos de pensão e empresas de telefonia e é acobertado até mesmo por um ex-presidente que o considera um homem brilhante e investe seu dinheiro com o banqueiro. Essa quadrilha se infiltra no serviço público e começa a perseguir policiais e juízes que combatem a corrupção. Lá pelas tantas percebo que não é um filme, não é ficção, é apenas o jornal da noite.

            Desligo a tevê e ponho ela na porta de casa. Amanhã mesmo ela vai pro conserto, tudo nela está trocado, há definitivamente algo de errado nela.



 Escrito por Fonjic às 23h53 [ ] [ envie esta mensagem ]



Brilho eterno de uma vulva sem lembrança

 

            É o último minuto da última música do último bar aberto da noite. Eu tomo o último copo de cerveja enquanto escuto as últimas palavras da música de Laura Leather ecoando no ar.

            Há algo de surreal na noite quando as pessoas já estão cansadas e bêbadas. Um sujeito que passara a noite inteira comportado vai aos poucos surtando. Ele tira uma boina do exército e começa  a falar da vida na caserna. Ele veste a boina. Fala da paixão por rock japonês. Tira uma farda e começa a andar pelo bar todo fardado, como se estivesse pronto para uma operação na selva. Ele diz que o nome dele é soldado Banzai.

            Laura Leather sorri enigmática. Ela usa uma calça de couro com saia de colegial por cima. Uma blusinha de colegial justa com uma sobretudo de couro tapando a saia e a blusa. Uma escultura viva de couro preto que se destaca do resto do bar como uma grande amaryllis vermelha sobre um fundo azul. Os lábios dela são largos, amplos e úmidos, vermelhos de um tom vulváceo profundo.

            Um tipo meio hippie metaleiro num canto diz que se chama Dudu Downtown. Ele veste um jeans preto com camiseta preta e botas curtas de couro pretas, dessas de peão de construção. Ele canta raulzito e emborca todos os copos que passam pela frente. É de longe o mais bêbado de todos.

            Uma das freguesas passa em revista as garrafas abandonadas nas mesas juntado as cervejas quentes de diversas marcas e distribuindo aos poucos clientes ainda no local.

            Banzai Boy, o soldado, começa a cantar o hino nacional e o dia desiste de amanhecer. Convencemos o dono do bar a adiar o fechamento e liberar mais uma rodada de cerveja. Ele aceita e garrafas começam a surgir de todos os cantos, servindo todos os copos. Laura Leather começa a cantar outra de suas músicas, competindo com o garoto Banzai que canta o Hino da Bandeira e Dudu Downtown que canta “Por quem os sinos dobram”, outra clássica de raulzito.

            Somos por fim expulsos do bar e saímos zanzando pelas ruas de uma floripa deserta entorpecida de sono e cansaço e suor. “Somos uma porra de tira de quadrinhos” digo para Laura Leather, que ri e abre o sobretudo, deixando o frio da noite penetrar na roupa de colegial. Banzai Boy ainda fardado e Dudu Downtown por fim desistem de cantar e chegam a conclusão de que somos estereótipos alucinados de uma mente fragmentada.

            Somos o Esquadrão Bizarro, concluiu por fim Laura Leather, quando finalmente surge nos ceús nosso chamado secreto de emergência e partimos correndo para mais um missão.



 Escrito por Fonjic às 09h36 [ ] [ envie esta mensagem ]



Cafezinho

Estou no meio do trabalho concentrado quando o patrão chega no alto do mezanino e grita: “cafeziiiinhoo!!!”. Droga, maldita política da empresa que agora dita que todos devem tomar seu café ao mesmo tempo. Política de estímulo à coletividade transpessoal é o nome que deram. Desde que a tal política do cafezinho começara, eu passava a manhã inteira lendo bobagens para fingir que trabalhava, à espera do momento em que eu pudesse saciar meu vício com uma nova dose de cafeína no organismo.

            Fui até a copa onde os outros já estavam e peguei uma xícara quente e fervilhante do ouro negro. A cafeína é a droga psicoativa mais consumida no mundo. Tomei o líquido quente, que desceu queimando a parede da garganta, o esôfago e chegou no estômago, onde logo começou a ser absorvido. Assim como o álcool e a cocaína, entra na corrente sanguínea correndo acelerada até chegar no cérebro, onde consegue atravessar a barreira entre o cérebro e o sangue.

            Ainda estou lá parado em meio aquela multidão de funcionários quando as moléculas de cafeína começam a se ligar nos receptores de adenosina, neutralizando-a. A adenosina é o neurotransmissor responsável por proteger o cérebro, indicando ao corpo os sinais de fadiga. Quando a suprimimos, a necessidade de descanso continua, mas o cansaço some, de forma que fraudamos o corpo para continuar trabalhando.

            A concentração aumenta, o sono se esvai,  meus batimentos cardíacos finalmente se aceleram. Então a cafeína começa a sua melhor parte, que é sua interação com o ciclo da dopamina, responsável pela sensação de recompensa e desejo, de forma que mesmo sem fazer nada podemos sentir aquela satisfação gostosa de ter sido recompensado por um trabalho bem feito.

            A pegadinha com a dopamina é que ela te ajuda a viciar. Se você ingere cafeína ao trabalhar, sente sensação de recompensa. A idéia por trás de toda essa política era, obviamente, tentar viciar os funcionários no trabalho. Acontece que eu, ao tomar meu café diário, não conseguia parar de olhar para a secretária da empresa, motivo pelo qual o vício do café não se grudou no ato de trabalhar, mas em minhas fantasias com ela.

            Passei a ter sonhos estranhos todas as noites com ela. E passei a tomar mais café, ficando cada vez mais difícil dormir e distinguir quando eu estava acordado ou dormindo, sonhando ou trabalhando.

            Por fim, veio ela emergindo numa onda de vapores oníricos, trouxe uma folha e me entregou. Que sonho estranho, eu disse à ela. Isso não é sonho, se liga, é seu aviso de demissão. No dia seguinte eu estava na fila pedindo meu seguro-desemprego.



 Escrito por Fonjic às 12h55 [ ] [ envie esta mensagem ]