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Uretrite: contos de Fonjic
 

Das muitas qualidades perdidas por Dudu Trinidad

            As reminiscências do passado andavam ao meu lado agora. Milhares de frases do falecido mendigo de mais de cem anos que me acompanhara nos botecos da vida. Rutwanna Wers sempre dissera: há duas provas da inexistência de deus, uma é a dor de dente, outra o filme pornô com história.

            Apesar de discordar dele e achar que o número de evidências para tal tese eram bem maiores, confesso que entendo o ponto de vista dele. Eram dias nublados e estranhos... e por causa disso comecei a chamá-los de dias estranhos. Dias estranhos.

            Rutwanna tinha outra frase que parecia agradar ao pessoal do boteco e me repetia incansavelmente: essa tua geração só não me dói mais no saco porque os testículos já se foram na guerra!

            Nunca soube que guerra era essa, nem ele nunca explicou. Mas isso talvez explicasse o fato de ele nunca ter tido mulher e filhos. A julgar pelo jeito dele, poderia ser a primeira guerra mundial, ou até mesmo as guerras napoleônicas. Embora ninguém duvidasse que ele tivesse lutado durante a época da segunda guerra, provavelmente na Espanha, contra os franquistas.

            Seu sotaque era estranho. Nunca soubemos se ele era húngaro, turco, egípcio ou o que quer que fosse. O fato é que sempre que perguntávamos ele se sentia ofendidíssimo e dizia: sou brasileiro porra, ouviu, brasileiro igual a você. Mas isso ele não era mesmo. Viva trocando os “as” com os “os” e tinha um sotaque de lugar nenhum do país. A única coisa em que todos concordavam que ele se parecia genuinamente brasileiro era afirmar categoricamente que esse país era uma merda. Daí ninguém entender o porquê das crises de raiva quando alguém suspeitava de ele ter uma nacionalidade outra.

            Uma vez ele me disse:

            --- Você é um idiota!

            Eu ri e olhei para ele seriamente, como sempre fazia quando não havia nada que eu pudesse dizer. Não podia concordar por motivos óbvios, mas tampouco queria discordar, pois sabia que isso o impediria de continuar seu raciocínio. Pode parecer uma atitude submissa e covarde da minha parte, mas o fato é que isso me proporcionou muitas descobertas que de outra forma Wers me teria negado, como a vez em que ele me ensinou como fuder um poste.

            --- E por que eu sou um idiota?--- perguntei rindo

            --- Por que não se revolta com as coisas. Concorda com tudo, fica aí parado, contemplando o mundo. E quando se fode nem sequer reclama.

            Aquilo doeu. Com que direito ele entrava na intimidade da minha vida para fazer tais suposições? Com que direito tirava ilações?

            Paguei minha cerveja e fui para casa. E até hoje me arrependo disso. Normalmente voltávamos Wers e eu, eu o ajudando e guiando, pois não conseguia se equilibrar sobre as pernas no caminho para casa, parte culpa da bebida, parte culpa da idade. Naquela noite voltei antes e nunca mais vi Rutwanna Wers. Atropelado por um caminhão, foi o que disseram.

            É difícil carregar uma culpa quando não podemos amenizá-la. Pior que isso, é difícil carregar uma culpa indesejada, pois culpas desejadas podem proporcionar grandes prazeres mentais, como a vez em que com quatro anos segurei uma galinha e bati em seu pescoço até sentir um troc. Depois, quando acharam a galinha morta, pus a culpa no filho do vizinho, que deve ter levado uma boa surra naquela noite.

            Mas às vezes a culpa é indesejada. E é só aí ela se torna realmente culpa. Quando penso se poderia ter salvo o velho mendigo, chego a conclusão de que devo mudar de assunto para não enlouquecer. Lembro que ele me disse: minha geração se identifica pelas coisas que produz, um ferreiro se simpatiza de outro ferreiro e por aí vai, a de seus pais se identifica pelo que consome, usuários do shampoo tal simpatizam com outros usuários do mesmo shampoo, a sua não, sua geração é a mais idiota que eu já vi, não consigo entendê-la.

            Eu pensei por anos nessa frase do Rutwanna, que a repetia com freqüência. Eu matei a charada, velho, eu matei. Minha geração é a mais imersa no mundo das mercadorias, aquela que não consegue conceber como humano a produção em si das coisas. Minha geração é daqueles que não vêem os objetos como mercadorias, é daqueles que são mercadorias. Dos neo-yuppies que precisavam valorizar seu portifólio recebendo diplomas inúteis, das garotas e garotos de academia que precisam se bombar, enfim, pessoas que precisam se transformar em mercadoria aceita pelo mercado para poderem se comercializar.

            Mas de que adianta, Wers, se você morreu, e não há ninguém mais para quem eu posso contar isso e que vá entender? Eu provavelmente prestei atenção demais as suas perguntas e baboseiras, quando deveria ter me limitado a rir como os outros bebuns.

            É... você estava certo, Rutwanna Wers, meu maior defeito é não conseguir mais me indignar com as coisas que exigem indignação. Eu deveria, eu sei. Mas a tristeza que deriva quando contemplamos as coisas e as pessoas como são hoje é por demais forte, por demais opressora e por demais incapacitante. Me desculpa, meu velho mendigo, deixei você morrer, e contigo se foi o que restava da humanidade no mundo.



 Escrito por Anacreonte às 02h47 [ ] [ envie esta mensagem ]