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Uretrite: contos de Fonjic
 

A marcha fúnebre

                                                                                    AvG

                                                                                    18:12 – Priápico, 01/10/05 – em casa

 

            Eu chegara quase na meia idade e ainda olhava para mim com desprezo.

            Não era o desprezo juvenil, aquele de quem se olha e sabe que ainda não fez nada do que queria, que ainda não teve tempo ou competência para fazer tudo o que queria. Não, era pior. Era o desprezo de olhar-se e ver que seu tempo já passou sem que tivesse sido aproveitado. De que o tempo passou e não se fez nada do que queria, nem por falta de tempo, nem de competência, apenas por não ter ordenado as idéias e as colocado em prática.

            Pequenos temores tentavam me assaltar de quando em quando, e eu perdia horas e dias e ano da minha vida vendo tevê, vendo personalidades e modelos e dançarinas e modelos e atrizes que falavam sobre bobagens sem sentido, coisas que iam da cor da roupa a exame de próstata. Depois vinham médicos e políticos e especialistas e profissionais diversos que falavam sobre as mesmas bobagens sem sentido, da cor da roupa ao exame de próstata.

            Eu estava ficando velho e precisava obedecer o que a tevê dizia: parar de fumar, parar de beber, parar de comer e parar de trepar. Precisava me trancar num casebre de papelão e passar frio e fome e sobreviver a uns dois ou três surtos de dengue, febre amarela e diarréia, daí, talvez, pudesse sair de lá com algo novo, algo que me desse uma história, ou algo assim.

            Você passa tempo demais trancado em casa, me dizia meu antigo cachorro, que desde a morte passara a me acompanhar como fantasma a dar-me conselhos. Só ele restara, era a única pessoa viva num raio de alguns quilômetros, a única a não ter morrido em frente a uma tela de tevê.

            E eu estava em franca decomposição. Podia sentir a pele do corpo juntar-se ao tecido do sofá e iniciando um processo de fusão. O homem, o sofá e a televisão, fundidos num único ser perfeito, completo em si mesmo, capaz de praticar por tempo infinito o princípio físico da inércia.

            Boa parte da minha vida ocupei lendo os bons escritores e reclamando dos péssimos. Entre os péssimos estava Clarice Lispector, que entediava qualquer um automaticamente com aquelas histórias vazias sobre donas de casa em crise. Como eu sofri com aquelas leituras, pulava páginas e páginas da história e nada, nada acontecera, apenas uma velha se lamentando da vida.

            Foi só depois que morri e fiquei grudado na frente da tevê que percebi o drama da velha. Pois narrar histórias é a arte de transformar em histórias a inspiração vinda das experiências vividas. E se alguém nunca levou uma vida decente, ficou confinada em casa a vida toda cumprindo o papel de esposa de figurão, um dia se vê atacada pela urgência de falar de algo, mas não pode falar de nada, pois por mais que tenha conhecimento do mundo, não viveu o suficiente para que a experiência se traduza em histórias.

            Então se começa a falar sobre absolutamente nada. Como num insulto à inteligência do leitor, como num desabafo de quem não sabe sobre o que se queixar ou desabafar.

            E foi assim, morto, grudado para sempre naquele amálgama purulento de carne, pano e circuitos eletrônicos, o homem-sofá-tv, que descobri que eu também morrera, meu cérebro também fora sugado e, morto, estaria condenado perpetuamente ao digitar sem sentido, quando as linhas e letras e palavras vão se sucedendo umas as outras, mas nada mais faz muito sentido, nada mais interessa, nada mais existe porque não existe história, o escritor já morreu, apenas não sabe.

            Desliguei a tela do computador, chorando pela minha própria morte, e chamei pelo cachorro fantasma. Mas ele também já não estava mais lá. Havia apenas o zumbido da estática na tevê que pedia para ser sintonizada num canal qualquer, onde dia e noite, pastores e médiuns e padres e mães de santo e benzedeiras e homeopatas e charlatões em geral estariam pedindo dinheiro e convencendo a pararem seus tratamentos médicos e morrerem rezando, crentes de que seriam salvas. Depois, quando morriam, novas vítimas apareciam e o ciclo não parava e mais morriam e mais dinheiro entrava e todos morriam e todos enriqueciam e todos viravam híbridos e sofá e carne sem cérebro, condenados a morte em vida final.



 Escrito por Anacreonte às 03h20 [ ] [ envie esta mensagem ]