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Uretrite: contos de Fonjic
 

Museu da Vulva

 

Isso mesmo, os aficionados agora têm espaço garantido.

Certamente o mais belo museu do mundo.

http://users.resist.ca/~kirstena/pagevulvamuseum1.html



 Escrito por Anacreonte às 19h15 [ ] [ envie esta mensagem ]



Diário escolar

                                                 Fonjic

                                                 1:16 am – Metático, 19/06/06 – em casa

 

            O pé esquerdo impulsiona, flexionando músculos e tendões enquanto o pé direito avança veloz e silente. É preciso ser rápido. É preciso treinar. É preciso repetir o movimento mil vezes com a precisão de uma máquina. A espada empunhada se projeta para frente e rasga o alvo. O suor escorre pelo rosto, pelo corpo, deixando no chão uma trilha de pingos que se soma a trilha imaginária do sangue dos inimigos. É preciso repetir mil vezes cada movimento com a espada para alcançar a perfeição. É preciso extirpar todos os erros. É preciso aniquilar o que resta de humano em si para tornar-se homem.

            Saio exausto depois de quatro horas de prática. É uma rotina dura mas necessária. O inimigo não irá esperar se você não tiver praticado sua espada. O inimigo tem revólveres e fuzis e todo tipo de armas modernas. Por isso é preciso praticar mais e mais. Extirpar os erros. Aniquilar o que resta de humano para tornar-me homem.

            A noite é tranqüila e durmo pesado esgotado com o ritmo de doze horas de trabalho e quatro horas de treino com a espada. Quando bate cinco horas da amanhã levanto para mais um dia de trabalho duro.

            Meu café é tranqüilo, meditativo, enquanto espero pelo embate. Chego às sete horas no serviço já pronto para aniquilar meus inimigos. São crianças que correm de todos os cantos e vêm de todas as direções. Todas elas sorriem e babam e gritam e correm e agem como crianças, enquanto eu as massacro com minha espada imaginária.

            Há o grupo de crianças zumbis, cujo cérebro dormente mostra sua apatia no mundo exterior. Imagino-me degolando-as enquanto dito ordens. É preciso subir. É preciso descer. É preciso entrar. É preciso sair.

            Não precisa ter sentido, apenas firmeza. É loucura, sim, mas há um método nela, como bem sabia o bardo inglês. A escola me paga para que eu discipline as crianças, para que elas aprendam não a pensar, mas a obedecer ordens, mesmo as mais insensatas. O método então consiste no exercício do arbítrio puro. Se elas estão dentro das salas, eu as mando sair. Se estão fora, mando entrar. Se sobem, mando descer. Me imagino degolando a multidão delas a medida que chegam em minha direção implorando por um pouco de atenção ou afeto, para logo em seguida saírem tristes com sua estima ferida. O estado me paga para educá-los, discipliná-los, torná-los homens e mulheres de verdade. E para isso é preciso aniquilar o que de humano resta neles.

            Há o moleque corcunda que pensa que pode ser modelo. Há o de dezesseis anos ainda na quinta série. Há o que chora toda vez que apanha. Há a gorda que sente dor todo dia e a mãe diz que é psicológico. Todos eles têm um ponto fraco. Todos eles tem um canto obscuro onde dói quando se aperta. Minha espada não perdoa meus inimigos.

            Wittgenstein foi expulso da escola em que trabalhava ao dar um tapa numa criança. Ninguém entendeu ele, lhe faltou sutileza. Há muitas maneiras de machucar uma criança além de um tapa visível, e é preciso exercê-las com sabedoria para infundir nas crianças o terror e o medo da vida. É preciso ensiná-las o ódio e a obediência cega. É preciso acostumá-las e lamber botas e aceitar a subserviência. É para isso que a escola me paga e é para isso que o estado paga a escola. É preciso formar trabalhadores dóceis, servis e subservientes, trabalhadores perfeitos, capazes de repetir mil vezes o mesmo movimento nas fábricas sem um único erro. É preciso transformá-los em seres precisos como máquinas, é preciso aniquilar o que lhes resta de humanos para que enfim se tornem homens e mulheres.

            Saio contente no fim do dia, com meu serviço cumprido rigorosamente. Crianças outrora sorridentes que saem tristes e sombrias como deve ser. Agora novamente mais quatro horas de treino de espada e posso ir para casa. Repetir tudo de novo no dia seguinte. Repetir mil vezes, até que se aniquile o que resta de humano para obter-se o homem.



 Escrito por Anacreonte às 15h33 [ ] [ envie esta mensagem ]



Lady Rocket and the Lesbian Bangeroo Triplet

                                                                 Fonjic

                                                                 4:10 am – Qabálico, 20/08/06 – em casa

 

            Era provavelmente a melhor banda de Rock que já vi tocar naquele lugar.

            Estou falando é claro do lendário bar do Sangue, que tinha esse nome porque sempre saía alguém arrebentado de lá no fim da noite, que nem era no fim da noite, mas no meio da manhã, propriamente dita.

            Mas o fato é que tudo o que resta são ruínas de um passado escrito ao som de choros de bebê. O bar não existe mais, a banda não existe mais e até mesmo as três meninas que compunham a banda já morreram.

            Alguns achavam que era uma banda pornográfica ou algo sinistro. Mas não tinha nada disso. A única coisa que rolava é que a meninas tocavam sem roupa e se esfregavam o show inteiro. Mas o show era algo didático, educativo. Lembrava aventuras de RPG, lendas celtas e longas sessões da trilogia de filmes do senhor dos anéis, só que sem roupas e sem o macaco-prego.

            Era uma espécie de figuração céltica ou grega. Na verdade personagens que pertencem a várias mitologias: a moça, a mulher e a velha. De todas a mais linda era a moça, embora quem costumasse a agarrar o pessoal da platéia fosse a velha. Enfim, não se pode nunca ter tudo.

            A moça tocava bateria como um ser enjaulado. Era cercada de pratos e tambores e os surrava do início ao fim da exibição. Era selvagem. Era roque tocado como deve ser: som alto e mulheres nuas. Infelizmente, é como dizem, e a chama que mais brilha é a primeira a se apagar. Ecstasy, foi o que a necropsia revelou. Uma superdosagem que ferveu o cérebro e pifou os pulmões. Uma morte estúpida e desnecessária. A primeira delas.



 Escrito por Anacreonte às 14h45 [ ] [ envie esta mensagem ]



            Depois foi a guitarrista. A mulher. Toda a selvageria da moça, mas com mais pêlos pubianos. Aliás com mais pelos nas axilas também. E muitos piercings e tatuagens. E aquela praga que só as mulheres conseguem notar e que chamam de celulite. Ou não, porque de fato nunca puder ver nenhuma marca de coisa alguma e desconfio mesmo de que isso fosse apenas um boato criado por alguma feminista católica. Se a moça era bela, a mulher era o auge, dez vezes mais bela, dez vezes mais atitude, dez vezes mais ocorrências de doenças venéreas. Todos nós venerávamos ela. Embora tocasse um violentíssimo punk lesbocore toda noite, era de dia uma pacata funcionária pública que deu o azar de morrer de câncer com vinte e poucos anos. O mero fato de não ter morrido eu ou qualquer um dos escroques que freqüentavam o bar é, por si só, uma prova da injusteza da vida.

            A banda já havia acabado. O bar já havia fechado. E o ano já estava suficientemente ruim com as duas mortes quando veio a terceira. A velha, a baixista da banda, de personalidade mais melancólica e contida do que as outras duas, embora apetite sexual exponencialmente maior. Às vezes atacava também no vocal imitando Janis Joplin deprimida, ou, se estava alegre, saía pelo bar agarrando um por um todos os fregueses. É a diminuição da progesterona que, na idade madura das mulheres, faz aumentar a proporção de testosterona no sangue delas deixando-as piscando com vontade de dar por onde puder.

            O mais absurdo é que anos de putaria rock-hiponga e ela nunca pegara nenhuma doença venérea. Nada. Nem sequer chato, que era uma praga costumeira naquele bar. Um dia veio um ex-namorado conversar. Beberam um pouco, deram umazinha e pronto, no dia seguinte ela, sem saber, já amanhecera com o vírus. Ela se foi de forma deprimente, apenas mais uma na lista dos atingidos pela Aids. O que fez com que todo o antigo público do extinto bar corresse aos laboratórios em busca de exames. Com a morte da velha, morria também tudo de bom que havia acontecido naqueles shows político-pedagógicos. Era a morte de uma era, não só do bar, mas de todas as integrantes da banda também.

            Era fim do ano quando encontrei um amigo de longa data. “Adivinha quem morreu?”, perguntou ele. “Vai se fuder”, eu disse, e me afastei de ouvidos tampados. Já tinha havido mortes demais para mim naquele ano. Para mim elas sempre estarão vivas em minhas memórias bêbadas descritas de forma exata acima. Para os abstêmios, talvez a coisa seja um pouco mais sem-graça.



 Escrito por Anacreonte às 14h45 [ ] [ envie esta mensagem ]