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Uretrite: contos de Fonjic
 

Introdução rápida à teoria geral de tudo

                                                                        Fonjic

                                                                       

 

Scherzo:

            Chovia, num dia estático em que as gotas nem tocavam o solo. Era uma garoa, propriamente dita, pois movia em suspensão, só que mais pesada e molhada.

            A teoria geral de tudo engloba tudo, por definição e quase tudo na prática. Só fica excluído da teoria geral de tudo o não-tudo e aquilo que não é o tudo nem o não-tudo. Mas ao mencioná-los e localizá-los a teoria de tudo se vinga daquilo que não existe, absorvendo até mesmo aquilo que está além de tudo, totalizando o intotalizável.

            A loucura deve ser exorcizada com um copo de sabão e água quente, disse o pároco ao ver a menininha.

            Maldito sacerdote, cujo sangue ainda agora suplica pelo fio de minha navalha.

 

Vivace:

            Ofélia rodopiava embrigada enquanto Guildernstein e Rosencrantz ejaculavam nas mandrágoras famintas. Meus fantasmas de séculos acumulados escolheram todos a mesma hora para me atormentar.

            Vulvas, vulvas fosforescentes, púrpuras, amarelas, faiscantes de estática enchiam o céu como manto de estrelas, formando constelações que suplicavam a proa cortante de um barco a navegá-las.

            Eu tinha dezesseis anos, o mundo me deslumbrava, eu estava na metade da vida e acreditava na felicidade.

            A grande vulva rubra se abria e me iluminava seu caminho interior, para onde minha língua deveria me guiar e trancafiar.

            Vulva, vulva, vulva, palavras que ressoavam como tambores africanos em noite de coito ininterrupto. Era a gestação da teoria e Polonius bradava: é loucura sim, mas há um método nela! Eureka, gritei, e saí correndo desnudo a ver o pau verde gosmento que aprecia como visão fantasmagórica paterna dos anos futuros. Câncer, me disseram, você vai morrer um dia, Anacreonte.

 

Alegro ma non troppo:

            No jardim de flores eucoloridas Gardênia passeava desfilando suas botas de couro que eram a única peça a cobrir alguma parte do corpo. O cheiro era suave e a ausência de bebida me deixava num estado de êxtase e fadiga, compreensão e loucra, soma e esfacelamento. Acima havia apenas um grande brilho branco que esfacelava, ofuscava, impedia ou desencantava a constelação vulvoláctea que me conduzira pelo fio da navalha.

            Aquele padre puto e aquela sede de sangue e tudo que turvava os olhos e queimava o mundo como neon vermelho.

 

Andante ma giallo:

            Rasguei as roupas rídculas que ostentavam hostes de ocidentais bárbaros, boçais e bestiais. Esguichei o sangue, arrebentei a carne, serrilhei o osso, emaguei tendões e furei os olhos. A fúria tinha seu andor próprio e Gardênia abençoara minha glande com seu toque telúrico.

            Eu fora marcado.

 

Adagio:

            Crianças multi-potentosas corriam em frêmito circulando o baile e gritando mais alto, mais alto, mais alto, a nota aguda que se torna inaudível mas rompe a carne dos tímpanos e dilacera os ossos do crânio. Wagner conduzia a obra e animava as pessoas que caíam exaustas a persistirem e seguirem. A promessa de paz ou juventude ou humor vaginal eterno fora quebrada e as potências mundias entraram em guerra para consumar a potência e esvair o poder. Lágrimas correram pelas frestas da parede quando Hiroshima rasgou o tecido da realidade e os mangás nunca mais foram o mesmo.

            Gardênia estava condenada eternamente a ser uma página rasgada na mão de um padre que se masturbava. A brancura de Gardênia a tornava invisível na folha em branco. O negror da roupa clerical tornava os vermes invisíveis no mundo de trevas.

            Gardênia morreu aos treze anos com roupa de colegial currada num matagal e vem todas as noites me assombrar. Ofélia grita ao fundo como louca enquanto Gardênia me sussurra promessas doces de amor, vulvas quentes que estabilizam a temperatura ambiente. Ofélia morreu por minha culpa porque não a conheci naquele dia que não saí de casa e me atormenta com sua dor. Dolores é a mais recatada, apenas vaga por aí realizando fantasmagórica faxina que nunca se concretiza, pois a sujeira é real e fantasma nenhum poderá limpá-la.

            Meus fantasmas me escolhem porque sou leniente e velho e fraco e estúpido demais para rejeitar um pensamento que me venha atormentar.

 

Finale:

            Morgana vem e me culpa, me culpa por ela, me culpa por mim, me culpa pelo tudo e não tudo. Morgana é a pior de todas e quando ela chega, as outras somem. Vulvas fogem como crianças assutadas chorosas, todo o fogo multicromático vaginal se apaga, os cenários desabam, ofélia esvanece, Gardênia se esvai num sangue denso e pastoso, sobram eu, e o nada contra Morgana e o tudo, e ela me avassala, me destrói, me corrói e eu descubro que, de alguma forma, fui eu quem espargiu e destruiu universos inteiros compostos de fantasmas que me atormentam e me criam pensando serem crias minhas.

            Cravos as unhas na minha carne e noto que ela sangra e choro de alívio.



 Escrito por Anacreonte às 08h53 [ ] [ envie esta mensagem ]