Ascensão e queda da TGT
Fonjic
Depois de meses de trabalho, finalmente minha magna opus estava pronta. A Teoria Geral de Tudo (TGT), que me tomara a vida inteira de estudos, pesquisas, exaustivas sessões de sexo e cálculos infinitesimais.
Era algo grandioso de se ver, com a TGT eu conseguia correlacionar tudo com tudo, qualquer coisa com qualquer coisa. Perguntas sobre a relação entre sexo e filosofia, ou entre política e literatura, ou veterinária e logística, tudo podia ser facilmente equacionado com a TGT.
Eu estava eufórico. Porém a TGT me levara a uma série de teorias, postulados e desdobramentos que exigiam um grande volume de processamento de informações. Uma enorme matriz tudo (todos os elementos referentes ao mundo real) ao quadrado, que correlacionava tudo com tudo, e apontava, no futuro, para o fator de dominância dos elementos uns sobre os outros, que exigiria o processamento de uma matriz de tudo elevado a tudo.
Eu precisava, portanto, da chancela acadêmico-oficial para que institutos de pesquisa e governos do mundo pudessem canalizar incontáveis somas de dinheiro e recursos para um programa de pesquisa na área.
Reuni-me com os líderes mundiais e expus a eles minha teoria. Ela era brilhante, explicava qualquer indagação, desde efeito erótico do xampu à correlação entre loteria e placas continentais. A maior empreitada já realizada pela humanidade, e eu havia descoberto tudo.
Entrei na sala de madeira preta em que os líderes, cinco ao todo, estavam sentados em uma plataforma elevada atrás de uma tribuna, de forma que seus testículos ficassem na mesma altura dos meus olhos, pois, mesmo que a tribuna impedisse o grotesco contato óculo-testicular, era suficiente para criar uma atmosfera de opressão moral que determinava quem estava no comando.
Mal comecei a exposição da TGT e mandaram-me que calasse. Eles disseram que não tinham interesse no tudo, que isso não era novidade para eles, e que a humanidade não precisava de uma teoria de tudo. Me senti como numa história de ficção científica barata de disco de rock dos anos 1970. Disseram que sairia muito caro e não havia interesse nisso. Uma teoria dessas acabaria com toda a possibilidade de continuidade no campo das pesquisas, pois já teria explicado tudo. Disseram que era loucura, apesar de sua validação metodológica. O que eles queriam era uma teoria que falassse sobre o nada e sobre os mundos inexistentes do nada.
Mas tal coisa não existe, protestei, já contendo as lágrimas.
Exatamente, disseram, por isso mesmo a necessidade de uma teoria sobre elas, para que possam ser criadas em sua inexistência.
Saí de lá arrasado, abatido, amuado. Por unanimidade a teoria do tudo fora rejeitada, pois não era do interesse da humanidade.
Parei num buteco, sentei numa mesa de canto e mandei descer, uma após outra, quantas cervejas eu pudesse tomar. Já no fim de noite eu desabafava bêbado com o garçom contando minha tragédia e ele disse: “amigo, o que você precisa é de uma boa buceta”. Consultei rapidamente a cópia da TGT que eu trazia comigo e ele estava certo. Inexplicavelmente eu nem publicara a TGT e suas informações já haviam vazado.
Escrito por Anacreonte às 22h23
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