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Uretrite: contos de Fonjic
 

Altos e baixos dos grotões da juventude

 

                                                                                    Fonjic

 

 

            Muita bobagem circula por aí sobre vício em drogas. É como se um produto químico tivesse poderes sobrenaturais capazes de se apoderar de uma pessoa e controlá-la, passo a passo.

            Lembro bem minhas memórias até metade da minha vida, da parte que vai ali de uns quatro anos até os quinze. Desse ponto em diante comecei a beber para esquecer e aliviar a dor de estar vivo. Deu certo, hoje sou um adulto, saudável, de trinta anos, que não sinto mais dor alguma por estar vivo, nem lembro de nada que aconteceu nos quinze anos que se passaram desde então até agora.

            Não virei alcólatra, embora ainda curta uns tragos de vez em quando. Nem precisei de terapeutas, pajés, lixo religioso, ou sofrimento algum para evitar o vício. Apenas porque o próprio álcool foi eficaz naquilo para qual ele era ingerido que acabou ele mesmo por destruir a necessidade de seu uso intensivo.

            Para não dizer que não lembro de mais absolutamente nada, alguns fragmentos esparsos ainda me surgem do período de dois a quatro anos e dos quinze aos trinta, todos embaralhados e sem data certa. Sei que tinha um pijaminha de botões de pressão, embora não lembre sua estampa. Lembro que ia num jardim de infância em que as professoras amarravam as crianças que não se comportavam direito. Lembro que havia um conto na primeira revista de putaria que comprei em que o cara não lavava o pau para sentir o cheiro de pneu de caminhão que ficava. E, segundo o mesmo ilustre autor, as bucetas cheravam a caviar, ou bacalhau. Lembro que guardava vinho e vodka escondidos no guarda-roupa. Lembro que ganhei do vizinho um brinquedo que girava e soltava faíscas e lhe dei em troca meu revólver de plástico que estalava quando se apertava o gatilho. Lembro de ter misturado abacaxi, martini e vodka e dado um porre numa turma de colegiais que eu nem conhecia. Lembro de ter pensado em comer a mulher mais feia do mundo. Lembro de ter agarrado meia dúzia de gurias que eram chatas demais e me fizeram me arrepender. Lembro de sair à noite, quase todas as noites, beber atér cair, rastejar no chão, filar cigarros, sofrer a humilhação pública que ajuda um homem a fortalecer seu caráter e despir-se dos pudores burgueses comuns. Lembro de tomar vinhos baratos e agarrar meninas chapadas que eram mais loucas que eu. Lembro de ter feito cocô no chão do corredor enquanto minha mãe mostrava a casa para uma visita. Lembro de lamber sabão. Lembro de ter viajado para muitos lugares, embora eu não tenha a mínima idéia do quando nem porque fu para lá. Lembro de ter sido torturado por seis horas numa viagem para porto alegre com um aparelho tocando Renato Russo em italiano. Lembro de ter mijado na chaminé da churrasqueira enquanto minha mãe me dizia que a festa acabara. Lembro de matar aula e esperar meu pai sair pro trabalho para entrar e ir dormir. Lembro de ter comprado um engradado de cerveja e não ter onde esconder depois.

            Lembro de olhar a cidade no mapa e decidir viver numa ilha em forma de buceta. Uma imensa lagoa no meio formava o canal vaginal em cujas noites eu mergulhava e me locomovia lentamente entre os bares, como num sonho louco e febril. Selvagem e feliz. Lambendo as horas que escorriam como fluído sensual daquelas entranhas quentes e macias, até que a manhã troxesse a loucura ofuscante do sol e secasse os sonhos. Hora de ir para casa.

            Lembro de me masturbar incontáveis noites sobre os mapas daquela ilha de desterrados com nome feminino. O nome de santa era apenas um pretexto lúbrico para que se pudesse possuí-la sem ser incomodado.

            Mas os canalhas de plantão vieram e contruíram enormes falos ligando o continente àquela vulva flutante no mar. A cada década um novo falo. Mataram todo mundo e trocaram o nome de mulher pelo do conquistador. Macularam a vulva geográfica com falos de concreto e nomes odiosos que ainda hoje a estupram diariamente, em cada translado, em cada cabeçalho, em cada endereço nas cartas.

            É por isso que fico feliz que a bebida tenha feito seu efeito e apagado o turbilhão de memórias que ainda hoje acenam a tragédia. A bebida me trouxe a paz e a felicidade. Uma espécie de lobotomia química. O pilar da sociedade moderna pois faz os homens se tornarem sociáveis e tolerantes, capazes de suportar o convívo com os demais em tão apertado espaço de uma cidade. A maioria das pessoas já está viciada em uma droga bem pior que é a crença em tudo que está aí. O álcool é a melhor chance quando você decide abrir os olhos e começar a suspeitar das coisas como são.

 Escrito por Anacreonte às 23h41 [ ] [ envie esta mensagem ]