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Uretrite: contos de Fonjic
 

Vida de homem

 

                                                                                    Fonjic

 

 

            Quarenta anos! Idade maldita.

            Eu não queria vir, mas minha mulher insistiu, disse e repetiu várias vezes: “ser homem não é apenas ter um pau entre as pernas, coragem!”. Eu protestava dizendo que a frase era machista, mas isso não a fazia menos inflexível.

            Proctologista, o dedo da morte.

            Normalmente a primeira consulta deveria ser aos cinquenta anos, mas por conta do histórico familiar, eu tinha que comparecer uma década antes. Meu avô tivera câncer na próstata, meu pai tivera câncer na próstata, todos meus irmão tiveram câncer na próstata e até uma prima distante diziam que tinha tido também.

            A escolha do médico é de suma importância. É preciso pesquisar e perguntar para todo mundo de cabelos brancos em qual médico ir, qual recomendam. Nem tanto pela competência do médico, mas mais pelo ritual de vagar em busca de todos os conhecidos que já passaram pela experiência, o que te traz o conforto de saber que não serás o único.

            Todo mundo, todos, sem exceção, recomendava o Dr. Tenório. “Você tem que ir, é muito bom”, disse um apologista mais afoito, e eu não tinha a mínima idéia do que ele queria dizer.

            Anotei o nome e telefone num papel, mas foi minha mulher que marcou a consulta. No dia ainda tentei ficar em casa por conta de um pé torcido, mas a patroa era linha dura, não teve jeito.

            Cheguei no consultório e a recepcionista tentou me tranquilizar:

            --- Ohhh... o Dr. Tenório? Que maravilha, o senhor tem muita sorte, os pacientes adoram ele. É o nosso melhor proctologista, é um grande gozador.

            Era um mau presságio. Um duplo mau presságio. Já não bastasse ela ter gritado essas palavras de forma que todos na sala de espera sabiam agora onde eu ia, como também em nada me agradava aquela bizarra combinação de significados entre proctologista e gozador.

            Depois de uma tensa espera finalmente entrei na sala, desviando o olhar, temendo encarar frontalmente meu nêmesis. Na parede um pôster enorme de castelo com os dizeres:

            “Castelo de Caras. Aqui todo mundo mostra a bunda e todo mundo vê estrelas”.

            Infame. Infame e assustador.

            O cara era um piadista inquieto. Durante toda a consulta soltou várias bobagens como pedir desculpas pela unha comprida, perguntar se eu queria um molde das pregas antes e depois para comparar, teste da farinha e por aí vai.

            Quando finalmente começou a anamnese, disse-lhe que nunca tivera um caso sequer de câncer na família, todos saudáveis, mais de dez gerações acima, um orgulho, uma eugenia prostática irreprimível.

            --- Mas então por que você veio? --- Perguntou ele com misto de curiosidade e desconfiança.

            --- Bem... meu irmão sabe, ele tem um amigo, um amigo do trabalho, que teve câncer na família e... e meu irmão teve medo que possa ser contagioso. Isso é possível?

            --- Não, claro que, que bobagem. Pode ir para casa e esqueça desse absurdo. Nos vemos daqui a dez anos.

            Saí de lá aliviado. O suor parara, a respiração voltara ao normal, até as piadas do Dr. Tenório se esgotaram. Na saída me esforcei em andar o mais perfeitamente possível, para que todos entendessem que eu não havia passado pelo exame, o que, em última instância, talvez tenha surtido efeito contrário em quem assistia a cena. Dr. Tenório ficou apenas me olhando da porta sala e pensando: “essas bichas velhas, inventam cada desculpa para vir aqui e tentar conseguir uma dedada à toa.”

            Mas o fato é que eu tinha escapado ileso, e isso é que importava.

            Cheguei em casa e minha mulher, detetivesca, veio logo inquirindo como delegado de subúrbio:

            --- E aí, como foi? Fez o exame?

            --- Que pergunta? Pode ligar pra lá e perguntar pra recepcionista para ver que estive lá. O médico disse que estou perfeito, sem nada para me preocupar.

            --- Ó, que bom, estou tão orgulhosa! --- o tom agora mudara do policialesco para o meloso, estilo cafetão contente.

            --- É preciso mais do que um pau entre as pernas para ser um homem! --- disse a ela, estufando o peito, e me retirei para buscar uma cervejinha.

            É..., pensei, é preciso também carregar consigo toda a bagagem acumulada dos preconceitos e medos fundadores da civilização ocidental, para tranferí-los adequadamente à geração seguinte quando chegasse a hora. Tarefa árdua, coisa de homem.



 Escrito por Anacreonte às 15h34 [ ] [ envie esta mensagem ]