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Uretrite: contos de Fonjic
 

Um dia de errância

                                         Fonjic

            Eu acordei suado, encharcado, suado pra caralho, cabelos melados e as pregas de banha grudadas no colchão, soldadas ao tecido pela ação das bactérias que formavam colonias deglutidoras de suor.

            Eu preferia assim, nunca gostei do frio.

            Fui ao banheiro e fiz a toalete de sempre. Estava novo, pronto pra outra, só faltava matar a dor de cabeça. Fui a geladeira, enchi um copo de gelo, guardei a forma com uma pedra de gelo apenas de volta dentro do freezer para não esvaziar a forma e me sentir obrigado a enchê-la novamente. Fechei o freezer, voltei pra sala, tirei a vodka do armário, olhei para minha filha de um ano e e testei o novo truque que ensinara a ela:

            --- Olha querida, Stolichnaya! Óóóóóóó...

            Ela me acompanhou levantando as mão\zinhas e fazendo junto “óóóóóóóóó”.

            Nada como passar precocemente seus valores morais à nova geração.

            A vodka gelada desceu como um martelo rolando numa escada de vidro. Foi trincado e estilhaçando tudo pelo caminho, mais pelo gelado, pois a vodka era suave, puro mel. Servi outro copo e tomei mais devagar. A dor diminuiu até quase sumir.

            Tinha tido um sonho estranho, fora isso que me fizera acordar suado e com dor de cabeça. Eu estava dentro de uma sala vermelha, toda acarpetada, onde todos os sons se ouviam muito abafados. O carpete vermelho forrava todo o chão, as paredes e o teto. Eu estava amarrado numa mesa e ao meu redor populares que me olhavam calados e sérios. Eram todos pretos. Muito pretos. A luz amarela era fraca no recinto e tudo que eu via eram aquelas figuras que me olhavam sérias. Preto contra fundo vermelho. Olhos muito brancos furavam aquele desenho concretista e me encaravam. E eu estava borrado de medo.

            Gritei como um alucinado, quando começaram a balbuciar algo sobre xangô, exu, tranca-rua e uma série de coisas num dialeto africano mais antigo que a prória humanidade. Um grande incensório encheu a sala de incenso e a cantoria começou a inundar o ambiente e tambores bateram ritmado misturando a fumaça e acelerando cada vez mais, até que desmaiei. Desmaiei lá e acordei aqui, ensopado no charco de meu próprio medo.

            --- Ahá, está vendo --- começou a gritar minha consciência --- você teve pesadelos com negros, eu não disse que era racista?

            --- Cala a boca, idiota, o que me assutou foi aquele ritual, aquela coisa toda lovecraftiana que perpassava o ambiente.

            --- Ah, mas Lovecraft também era racista, não? Qual o motivo de temer o ritual senão fosse pela negrada? Negro, negro, cachorrão!

            Minha consciência gritava com a bunda de fora como Lucélia Santos em “Bonitinha, mas ordinária”, era minha chance de atacá-la desprevinida.

            --- Isso não faz sentido, porque muito mais detesto a igreja cristã de brancos.

            A consciência fez uma vozinha esganiçada como a bruxa má do leste ao receber um balde d’água e logo sumiu me aliviando de vez da dor de cabeça, mas meu ego, encarregado de me manter na linha do bom macho latino-americano logo veio aporrinhar também:

            --- Você sabe que o “Mágico de OZ” é um filme cult gay, não? Tô te estranhando rapaz, deixa disso. Tava indo tão bem citando Nelson Rodrigues e agora decepciona...

            --- Vai a merda você também, se quiser ponho a sunga do Sean Connery e saio pela rua gritando que sou o Zardoz e aí você some de vez.

            Ele saiu murmurando qualquer coisa e então se calou de vez, sabia que eu sempre cumpria minhas ameaças e não suportaria mais um golpe duro desses. Mesmo assim, ele trouxera a dor de volta.

            Minha filha tirou os olhos da tevê e disse para mim:

            --- Bíííí-bá!

            --- Claro querida! --- eu disse. E daí ela se jogou no chão e começou a rolar de sono. Foi até o travesseiro preferido dela e deitou nele, olhando para a tevê.

            Peguei as chaves, dinheiro e me mandei pra rua. Era cedo ainda, mas eu precisava ver o Professor. Ninguém sabia o nome dele, todo mundo no boteco o chamava de professor. Velhinho, cabelos brancos, sem dentes, caolho, falava baixinho e tomava todas. Ontem a noite eu fizera a bobagem de querer disputar com ele quem virava mais cachaça. Bobagem por dois motivos: primeiro porque ele vencera, como era óbvio que aconteceria, pois embora eu também fosse um cachaceiro da primeira divisão, ele era um veterano com muito mais experiência no gargalo. Existem várias técnicas importantes para esse tipo de competição, tais como evitar o cheiro da bebida, que é o que embrulha o estomago do sujeito, não a bebida em si, o timing correto para botar na boca, deixar rolar pra baixo e voltar a respirar, que se não funciona com perfeição o sujeito perde a competição na hora, e outras tantas nuances que o veterano dominava. E o segundo motivo é porque, mal eu anunciara minha derrota, o triunfante velhinho começou a ter um piripaque e empacotou ali mesmo. Achei que tinha matado o velho, mas a ambulancia levou ele e disseram que era grave, mas o velho ia resistir, ele se recusava a morrer.

            Chequei no hospital e tive que fazer hora para esperar o horário de visitas. O médico dele veio e me contou o que havia acontecido, era grave, mas ele ia se recuperar, blá, blá, blá, blá. De saco cheio daquilo, interrompi o falatório

            --- Mas afinal, o que ele tem?

            --- Teve um AVC.

            --- O que?

            --- Acidente vascular cerebral.

            --- Vascular?

            --- É, nos vasos?

            --- Teve um AVC vascular nos vasos?

            --- Não, não é isso.

            Me irritei de vez, aquele pulha estava me enrolando, só porque ele ganhava dez mil por mês e eu era um vagabundo sem emprego. Fechei o punho de soquei com toda força a cara do sujeito que, pego desprevinido, ainda rodopiou antes de cair sangrando no chão.

            Começou um alvoroço e eu saí dali. O professor ia se safar, o velho era foda, era isso que importava. Aquele soco me ajudara a me livrar de uma vez dos horrores dos sonhos e da vida real, um gesto catártico que me restaurou a confiança em mim mesmo. O dia pareceu melhor, a dor de cabeça sumira e eu fui pro bar e pedi pra descer a cerveja mais gelada. E veio mesmo gelada, estupidamente gelada.          



 Escrito por Anacreonte às 16h02 [ ] [ envie esta mensagem ]