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Uretrite: contos de Fonjic
 

Degrau curto

            Tudo começou com o João Bosco. Ou, pelo menos, por culpa dele. E do Vinícius  também. Que se foda quem, o fato é que foi aquela música do pato, maldita música, que me fez parar aqui nesse fim de mundo coberto de sangue e estrume.

            Eu fazia uma visita a meu pai. Ele estava morrendo, e meus irmãos disseram que eu não podia deixá-lo morrer sem que me visse uma última vez. As relações não eram muito amigáveis entre nós dois. Eu o evitava e ele, ofendido, não me procurava. Tínhamos assim um pacto de não-contacto, que impedia brigas e tornava mais suportável nossa relação, mesmo que isso implicasse na não existência dela.

            Depois de quatro horas sacudindo num ônibus, sendo a última hora inteira numa estrada de terra esburacada, com tanta poeira que nem se podia respirar, finalmente cheguei no meu ponto de descida no meio do nada. Era meio dia, o onibus parou, agradeci ao motorista idoso. Ele tinha um olhar gentil no início da viagem, mas agora era só rancor e irritação. Sua camisa estava encharcada de suor. Eu estava encharcado de suor. A poeira grudava no suor, na garganta, dentro dos olhos. Desci do ônibus e andei o mais rápido que podia para me afastar. Ainda assim, a chuva de poeir me antigiu de forma inevitável quando o veículo arrancou. Andei meio quilômetro pela estrada estreita de barro seco que levava ao casebre. Subi na varanda de madeira e descansei um pouco na sombra, aproveitando aqueles valiosos minutos para criar coragem, decidir se entrava mesmo ou voltava. A lembrança da estrada poeirenta e do sol do meio-dia me fez pensar que o que quer que me aguardasse lá dentro, não podia ser tão ruim assim.

            Bati na porta. Eu não sabia qual seria sua reação quando me visse e fechei os punhos com força, músculos todos contraídos esperando a inevitável discussão que viria. Ele me atendeu com alegria inesperada e entramos. Lá dentro era um tanto escuro, o que não fazia diferença para um velho quase cego, como ele era. Disse que soube que era eu pelo barulho das botas no alpendre. Me chamou de Ontinho, o apelido de infância que eu odiava. Disse que me tinha uma surpresa e lá veio ele com aquele disco odioso tocando “lá vem o pato patati patacolá...”. Desgraça, eu nunca tinha percebido o quanto odiava essa música. Ele dizia que era minha favorita desde criança e que guardava o vinil para mim.

            Tomamos cerveja. Isso ajudou a suar mais e espantar o calor. Quando era lá pelas seis horas vim embora para pegar o carro das seis, último de volta para a civilização.

            Eu me sentia como se tivesse ido ao próprio Hades para visitá-lo. Eu não visitara um moribundo, mas sim Tirésias já morto há milênios.

            Mas aquela merda da música. Aquela porra passou a me perseguir.

            Conheci uma garota legal no dia seguinte numa festa de metal que só tocou banda punk. Fomos prum canto, eu ia tirar o pau da merda, mas na hora de foder, lá veio aquela música sinistra em meus pensamentos, como a maldição de um morto. Brochei na hora.

            No dia seguinte, com outra garota, a mesma coisa. Tentei uma punheta em casa pra levantar a moral, mas nem a moral nem nada mais subia. Desgraça, pânico, terror total. A última coisa que pode acontecer com um homem.

            Passou uma semana, um mês, seis meses, e nada. Nenhum alívio daquele maldição, nem uma única ereção em seis meses. Era tudo culpa do pato, daquela visita nebulosa ao velho, aquele pesadela que se prolongara até a civilização para me arrasar e destroçar.

            Enfim, só tinha uma saída, uma decisão a ser tomada. Tomei de novo o velho ônibus da estrada esburacada. Desci lá de novo ao meio dia e tomei a mesma chuva de poeira. Tudo igual. Era como se o tempo não existisse ali, eu estava apenas revivendo aquele mesmo momento, mas eu teria de fazer diferente dessa vez, ou estaria condenado a um eterno vagar entre a civilização e aquele local fora do mundo, brocha para sempre.

            O velho me atendeu na varanda, com uma cara de surpresa agora. Seis meses e ele ainda aguentava firme. Enfisema pulmonar, cirrose, sarcoidose, prancreatite e muito mais,  um verdadeiro sumário das doenças já catalogadas pela humanidade.

            Fomos até o chiqueiro, nem me lembro mais sob qual pretesto. O calor me turvava a visão e dilatava as veias no rosto, minha têmporas prestes a explodir. Peguei um pá e bati-lhe com força na cabeça enquanto ele estava de costas. Foi o assassinato covarde de forma covarde. Foi o golpe de misericórdia num homem doente, pensei, tentando fazer parecer algo bom o que acabara de fazer. Arrastei o corpo para o meio da poça de lama e merda onde os porcos rolavam. Se assustaram comigo a princípio, mas o cheiro do sangue os atraiu. Fiquei empurrando todos os porcos para juntos do corpo, numa espécie de delírio febril, e só me acalmei quando vi segurei o corpo já todo mordido em meus braços e vi que estava mesmo morto.

            E é tudo por culpa daquela música que agora estou aqui, sem saber como fazer para me limpar o suficiente para poder voltar de ônibus sem chamar a atenção. Será que alguém no ônibus vai desconfiar? Vão me denunciar? Comecei a tremer. Cheguei a conclusão que era o sol que me deixava fraco. Entrei, tomei um banho, limpei todo o sangue, todo o barro, todo o estrume e depois todo o banheiro onde tomava banho. Comecei a me acalmar. O pesadelo passara. Tudo voltaria ao normal e eu poderia ser feliz novamente. Vesti minha roupa e caminhei para a estrada para pegar o ônibus. Uma estranha alegria se apoderou de mim. Sentia-me feliz, aliviado, ao invés da culpa que pensei que teria. Comecei a assobiar e uma músquinha logo brotou-me ao lábios, que logo cantei alegremente: “lá vem o pato patati patacolá...”



 Escrito por Anacreonte às 15h40 [ ] [ envie esta mensagem ]