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Uretrite: contos de Fonjic
 

Só mais uma vez

 

            Então é isso, o relógio batendo, as cores borrando, sua vida passando em um minuto, ou um mês e meio, ou um ano.

            A morte sempre vem nos visitar, seja convidada ou não. Só mais uma vez você suplica a ela que vá embora. Traça seus planos como um Sísifo mais enlouquecido pelo desespero do que confiante no triunfo do ardil planejado. A morte tem pernas gostosas, como dizia o velho Buk. Com o tempo aprendeu a rebolar. Tem aquela cara de defuntinha simpática das revistas do Neil Gaiman, com um ar nostálgico à la Ingmar Bergman.

            A morte tem a buceta mais molhada que existe e você decide foder com ela. Você come ela direito e consegue um acordo. Mas é um acordo duro, um trato difícil de manter. Ela te mantém vivo enquanto você continuar comendo ela. Se você parar, é o fim de tudo.

            E quando você está quase parando, exaurido, ela te sussurra, não pára agora, só mais uma vez. E na luta pela vida com a morte você consegue um novo fôlego e inicia tudo de novo.

            Você está seco por dentro. Já ejaculou tanto na morte que não há mais nada para ejacular. Mesmo assim continua gozando a seco, e você sabe que tem que evitar isso, ou logo acabará brochando.

            Então você começa a desviar o pensamento. Começa a vasculhar sua mente por uma idéia que te tire dali e te dê mais tempo, mais alguns minutos ou anos de sua vida.

            Você está no último dia do ano de sua vida, mas ainda assim esticando o caminho dos ponteiros para evitar que os últimos segundos passem. Este é um ano em que não há viradas, não há festas, ele simplesmente acaba, para sempre.

            Você se lembra do seu finado tio Toni, que passou a vida inteira confinado no hospital. Você se sente subitamente ligado a ele, percebe uma conexão que não via antes. Você lembra de tê-lo visitado na infância e de como as tias velhas saíam do quarto dele chorando de preto, como se ele estivese já morto.

            Mas o velho era foda. Estava vivo e seu espírito colérico o impulsionava até o fim. Ele nunca se acomodava. Ele rugia de raiva, babava, assediava e molestava sexualmente as enfermeiras.

            E o velho continuava vivo, cirurgia após cirurgia e você já não era mais criança, era um adolescente que descobrira o macabro gosto de ir visitá-lo. Ele tinha belos olhos que transbordavam fogo e falava sem parar coisas malucas sobre a vida, a morte, mulheres.

            Ele era velho já, e passara a vida inteira num hospital, naquele hospital, sempre com um olhar de raiva. Mas mesmo assim havia uma candura nele. Uma alegria triste de quem ainda está vivo. Ele passara a vida inteira lá trancado, o corpo definhando, mas a mente evoluindo, estudando, aprendendo. Conhecia melhor o mundo e o ser humano que qualquer pessoa, e em gratitude às minhas visitas despejava sobre mim todo seu conhecimento acumulado.

            Até o dia em que eu saí e percebi que ele se despedia. Não nos veríamos mais. Saí com a certeza do fim. A morte é isso, compreendi, é a certeza do fim. E com essa descoberta veio o orgasmo final que comandou o início de meu desfalecimento. Só mais uma vez, por favor, sussurou a morte de olhos fechados, e recomeçamos tudo de novo. Esse era um ano que talvez nunca acabasse.

 



 Escrito por Anacreonte às 05h04 [ ] [ envie esta mensagem ]