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Uretrite: contos de Fonjic
 

O cemitério

Perto de casa tem um cemitério.
Não é dos grandes, apenas um cemiteriozinho agradável com algumas tumbas corroídas e descuidadas. Não tem flores, exceto as que casualmente surgem no mato que o reveste. Chego lá pegando uma ruela à direita no caminho principal e subindo o morro. Tem uma bela vista lá de cima. Agradável. Gostaria de morar lá.
De fato, sou tantas vezes compelido a ir lá, que me tomam por morador, às vezes. Isto é, não sei se me tomam por um mendigo que passa suas noites em meio aos mortos ou por um morto que sai para seus pequenos passeios noturnos.
De qualquer forma, sei que há qualquer coisa lá que me alimenta, me vicia. É como se eu fosse uma espécie de vampiro, sugando energia vital dos mortos. Só que os mortos estão mortos, então não me sobra muita vida para sugar, como faziam os vampiros do espaço de Colin Wilson ou o duende de “Olhos de gato” com seres vivos. Nem sinal da Mathilda May andando pelada por lá também.
Só eu e as tumbas. Uma fixação lovecraftiana, ou poeniana, sei lá, apenas eu e a escuridão e os ouvidos atentos esperando pelos galhos quebrados, sussurros nas trevas, gritos por miolos. Vejo meus antepassados e descendentes, todos enterrados, todos se acumulando embaixo da terra enquanto o tempo passa e eu apenas assisto, mero espectador fora de tudo, fora da membrana universal e suas onze dimensões... apesar de que só reconheça quatro delas.
O cemitério veio para substituir a biblioteca, essa sim, o lugar mais assustador que frequentei. Eu costumava a matar aulas de álgebra para ficar lendo poesia inglesa ou contos de terror. A primeira vez que li Kafka foi em inglês e achei que precisava praticar mais o idioma, pois não havia entendido direito. Depois, quando li em português, descobri que não havia nenhuma falha na compreensão da língua, era o labirinto kakiano que era assim mesmo. Eu costumava a tirar longos cochilos na frente das estantes de livros, frequentemente assombrado por sonhos impossíveis.
Aquele lugar era também um cemitério. Cada livro era uma tumba de um autor há muito tempo morto. Centenas, milhares de autores mortos empilhados na estante sob milhões de partículas de pó. E o cemitério era também uma biblioteca, com cada tumba trazendo inscrita uma história mal contada, dizia o início, o fim, e algumas palavras sobre a filiação do morto ou seus descendentes, nada mais. Depois de dez anos, cada cova cedia espaço a um novo cadáver, cuja tumba agora contava a nova história fresquinha, ocultando para sempre a história anterior sobre a terra. Mas dentro da cova, impregnado no barro, os restos decompostos da materialidade humana se acumulavam e se uniam, criando imenso cabedal de histórias enterradas. Cada tumba uma história para ser lida, cada cova milhares de fragmentos putrefatos de diferentes corpos, misturando histórias, que só podem ser conhecidas totalmente mediante sua ingestão. Ou mediante o deixar apodrecer de sua carne para junto daquelas, a participação final naquela grande epopéia.
Lá era um lugar que eu podia finalmente dormir em paz, sem os sonhos fantásticos e assombrosos das bibliotecas, nem a inquietação cotidiana do lar. Nada de sagrado ou metafísico, apenas o profundo e completo silêncio da escuridão.


 Escrito por Anacreonte às 02h50 [ ] [ envie esta mensagem ]