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Uretrite: contos de Fonjic
 

O conto da crônica

Alguns escritores são famosos por sua versatilidade, por escreverem todo tipo de texto. Outros por escolherem um tipo e se aprofundar nele, dilapidando a técnica.
Eu confesso que por escolha jamais teria sido contista. Sempre quis escrever romances, até fiz algumas tentativas nesse sentido, no entanto o trabalho árduo, cansativo e prolongado de um romance sempre me derrotou, atraído pela celeridade intensa do conto. Na verdade, quase crônica, se não fosse o fato de que meus textos nunca tiveram relação com a realidade, coisa pela qual a crônica se pauta.
Um dia, porém, tive a falsa esperança que conseguiria. Haveria de sonhar com uma. Era um plano ousado e insano, por isso tinha que dar certo. Li todas as crônicas do grande mestre delas, Olsen Jr., tomei dois copos de tequila e fui dormir, certo de que sonharia com algo.
O sonho veio, mas foi estranho. Sonhei que havia morado, quando jovem, perto da subida do morro da Lagoa e que tinha por vizinho um cara chamado Escroto. Droga, merda de sonho, eu estava vendo que aquilo ia ser realismo fantástico, não crônica.
O fato é que o seu Escroto fazia jus ao nome. Eu normalmente tomava pinga a noite toda com um grupo de cavalheiros que se reuniam num boteco junto a um posto de gasolina, do outro lado da rodovia estadual que passava junto ao bairro. Durante 3 anos a mesma coisa, seu Escroto entrava, mal humorado, sem olhar para ninguém, ou então olhando de soslaio, como quem olhava a podridão da espécie humana. Dirigia ordens ríspidas ao balconista, grunhia qualquer coisa e ia embora em seu carrão.
Então chegava o ano mágico. Naquele ano ele entrava sorrindo. Seu rosto parecia se deformar para deixar aparecer aquele sorriso ensaiado. Cumprimentava todo mundo, pedia votos e distribuía santinhos dizendo vote Escroto Souza.
Ele era bom no cinismo. Montou um programa de tevê onde fazia diariamente seu exercício de demagogia. Mesmo eleito deputado, lá estava ele todo dia trabalhando em seu programa vespertino. Se tinha um desvio de dinheiro na prefeitura de um aliado seu, ele dava um jeito de desviar o assunto para um inimigo político no estado ou nacional e dizer que se o prefeito roubava era culpa do governador que não fiscalizava, não do prefeito, que era um grande homem. Montou uma loteria para raspar os poucos trocados do povo pobre que o assistia e, com o dinheiro dela, de vez em quando chamava uma velhinha para doar uma cadeira de rodas... e ficava mais de meia hora na tevê posando ao lado da velhinha que chorava pela desgraça e o agradecia.
Mas o pior sempre vem depois. É aceitável um velho safado, ladrão e conservador, mas dói muito ver um jovem neste papel. Logo que ele começou a perder voto, lançou o filho, Escroto Souza Júnior, que era ainda pior que o pai, mais safado, ladrão e reacionário. Me lembrava de ter ido visitá-lo uma única vez como vizinho. Eles tinham um pequenino cachorro preto que tremia muito. Chegamos perto para examiná-lo e era pulgas. Muitas pulgas. Milhares que torturavam o pobre animal e despencavam enquanto ele andava.
Fiquei com muita pena do bichinho e nunca mais voltei naquela casa. A faxineira confidenciou que era uma tristeza, ninguém cuidava do bicho, nem o pai Escroto nem o Escroto Junior. Algumas semanas depois o bicho morreu, subnutrido e cheio de feridas inflamadas das mordidas do hematófagos. Tal pai, tal filho, pensei na época. Mas hoje, vendo os dois, vejo que o DNA da família se aperfeiçoou e filho tornou-se muito mais um Escroto do que o pai.
Esse pensamento ainda bailava na minha cabeça quando acordei assustado e suado. Droga, lá se fora minha crônica, substituída por uma história ficcional. Me incomodava ainda mais que no final do sonho, mesmo eu sendo ateu, pude ver ambos com um sorriso maligno empunhando bandeiras do demo. Caralho, o que isso fazia no meu sonho se não creio em deuses nem diabos? Eu bem sabia que a coisa ia descambar pra realismo fantástico, vai ter que ficar pra outro dia o sonho de escrever uma crônica...


 Escrito por Fonjic às 04h22 [ ] [ envie esta mensagem ]