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Uretrite: contos de Fonjic
 

Murmúrios Do Pântano - Fudido mesmo foi Fortunato

H.P. Lovecraft, em seu longo ensaio O Horror Sobrenatural Na Literatura, atribuía a Edgar Allan Poe uma aurora literária afetando “não somente a história dos contos bizarros, mas a história dos contos como um todo”. Um dos dez capítulos do ensaio de Lovecraft é dedicado a Poe, e não à toa. Poe revolucionou os contos de terror, criou o gênero policial e abriu caminho para todos os escritores de terror, estabelecendo o atual modelo do gênero.
Esse talvez o motivo que levou Alan Parsons a criar seu Alan Parsons Project, com o álbum Tales Of Mistery And Imagination. O álbum em questão, gravado em 1976, deu tão certo que gerou uma dezena de outros projetos de Parsons.
A idéia do álbum é boa, entre o repertório podemos encontrar contos e poemas clássicos de Edgar Allan Poe como A Dream Within a Dream, The Raven, The Telltale Heart, The Cask Of Amontillado e The Fall Of The House Of Usher. Não só a idéia é boa, como também sua execução. As músicas em geral possuem mudanças de ritmo que formam contrastes nos momentos importantes da melodia, como, por exemplo, quando Fortunato implora para ser solto enquanto é emparedado vivo. Além disso as duas instrumentais do disco têm uma abertura feita pela narração de ninguém menos que Orson Welles, o cara que deixou os americanos em pânico ao adaptar a Guerra Dos Mundos, de H.G. Wells, parando os Estados Unidos ao narrar pelo rádio a invasão de alienígenas que destruíam Nova Iorque.
O disco é muito bem introduzido com a instrumental A Dream Within a Dream. O poema de Poe é de inspiração Byroniana, sobre uma pessoa atormentada cujos dias se passam não somente como um sonho, mas para quem tudo que vemos ou parecemos é apenas um sonho dentro de um sonho. A instrumental é, como se pode esperar pelo tema e título e tema, melancólica. Essa melancolia vai ser perfeita para dar início à música seguinte, The Raven.
Novo parágrafo, afinal o poema merece. O poema O corvo (The Raven) é a obra mais famosa de Poe. É a história de um homem que sofre pela morte da mulher amada enquanto é visitado por um sombrio corvo numa noite de tempestade.
Segue-se uma série de perguntas do homem ao corvo, que a tudo responde “nunca mais” (Nevermore). Termina com o cara desesperado sabendo que aquele corvo nunca mais vai sair da casa dele e parar de atormentá-lo. Poe construiu o poema pensando primeiro que o mais belo tema é a tristeza, e a mais forte tristeza é a melancolia de um amante enviuvado. A segunda decisão de Poe sobre o poema foi a de um refrão acabando em "ore", principalmente com a palavra nevermore. Só depois disso tudo ele começou a compor o poema. Nesses pontos Alan Parsons fez boas escolhas na música. Ela começa com um ritmo lento e cadenciado por um batida de fundo. Invés da transcrição do poema a música traz uma letra curtinha e usando o refrão "Nevermore". A música vai crescendo e se tornando agitada, assim como a narrativa do poema, terminando no tom melancólico novamente. Apenas uma coisa estranha: é que ao final da música, o foco do refrão Nevermore está mais no início do palavra (Never), do que no fim (more), ao contrário do poema de Poe e do que ocorre no resto da música.
Seguindo O corvo vem O Coração Denunciador, um conto narrado por um homem preso por homicídio e enlouquecido pelo som das batidas do coração de sua vítima morta. O conto tem excelentes descrições, não só das batidas do que atormentavam o narrador, como também da visão do olho doente do velho que ele mata. Essa música também oscila entre momentos mais suaves e outros mais sombrios e a letra da música também é curtinha, dá uma pinçada nas coisas mais marcantes do conto.
A música que se segue é provavelmente a melhor do disco, feita em cima do conto O Barril de Amontillado, que narra a história de um homem imbuído do desejo de vingança e emparedar vivo seu desafeto, Fortunato. O início do conto já dá uma mostra do caráter determinado do narrador: “Suportei o melhor que pude as injúrias de Fortunato, porém, quando ousou insultar-me, jurei vingança”, ao que logo emenda o narrador de que “não deveria somente vingar-me, mas vingar-me impunemente”. O conto é de um sadismo cínico, como quando ao final, Fortunato, já sem forças depois de tanto implorar por ser solto mal consegue se mover e o narrador diz “senti um aperto no coração... devido talvez à umidade das catacumbas”. A adaptação do conto para música não poderia ser mais feliz. O vocal é arrastado e lento, dando a idéia da expectativa do narrador pela vingança e a espera pelo momento certo. Em seguida vêm os vocais da fala de Fortunato implorando soltura, que não só são de um lirismo gracioso como têm acompanhamentos de backing vocals alegrinhos de fundo.
Nesse ponto tem um cinismo sádico que só pode ser concebido como genial, devido ao vocal melódico e alegre contrastando com o diálogo dramático entre o vingado e o vingador:

Fortunato: O que são essas correntes prendendo meus braços?
Narrador: Parte sua morre a cada dia que passa.
Fortunato: Diga que é uma brincadeira e eu não vou me irritar.
Narrador: Você vai sentir sua vida escorrendo pra longe.

Depois disso a vem um trecho instrumental mais animado que volta ao tom melódico quando os vocais voltam a cantar. Uma boa música em cima de uma boa história.
A música seguinte é Doctor Tarr and Professor Fether, que é alegrinha demais e não merece muito comentário.
Em seguida vem a música mais bem elaborada do disco, a instrumental The Fall of the House Of Usher, dividida em 5 partes (Prelúdio, Chegada, Intermezzo, Pavane, Queda). O conto, A Queda da Casa de Usher, conta a história de um visitante que chega uma casa que mostra, assim como seus moradores, uma decadência mórbida.
Segundo Lovecraft esse conto é um dos melhores de Poe e está estruturado em cima da estranha trindade de Usher, a irmã de Usher e a sua casa, sendo os três destruídos ao fim.
Alan Parsons nos conta no encarte que Debussy chegou a escrever uma ópera inacabada sobre este conto chamada “O projeto”. O quanto o projeto de Parsons tem do projeto de Debussy eu não sei, mas deve ser muito mais que o nome, uma vez que essa música ocupa metade do disco e está dividida como uma música clássica. Todas as cinco partes que a compõe são excelentes, desde o prelúdio, passando por chegada, que obviamente alude ao momento no conto em que o visitante chega na casa e obtém suas impressões sombrias, até a parte Queda, que é uma barulheira infernal.
Vale a pena ouvir.
Já não tão infernal é a última música do disco, To One In Paradise, baseada no poema homônimo. A música é boazinha e dá um final mais leve ao disco, o que me leva a pensar que talvez fosse melhor tê-la encaixado antes de The Fall Of The House Of Usher, deixando ao ouvinte a sensação de destruição e desconforto causada pela queda do casarão. Como já estourei em muito o tamanho limite dessa coluna, me calo por aqui.


 Escrito por Fonjic às 04h33 [ ] [ envie esta mensagem ]