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Uretrite: contos de Fonjic
 

Morte em Trittenbourg


A visão se expande e estende no calor do dia, abrangendo a largura de centenas de metros da paisagem da rua. Centenas de pessoas cruzam a savana árida da cidade, todas vistas com perfeição e exatidez pelo predador. O assassino de Trittenbourg escolhe sua presa e parte para a aproximação.
A visão muda do olhar amplo para o olhar focado, o olhar de caçador. Centenas de pessoas e carros trafegam apressadas num amontoado confuso, mas o olhar do assassino está focado nela, a vítima, a bunda perfeita, numa calça de malha preta enterrada.
Perfeitamente redonda e macia, duas nádegas simétricas, que se movimentam no caminhar da presa. O assassino precisa dos olhos frontais dos grandes caçadores selvagens e não é distrído pelo burburinho ao redor. Tudo que seus olhos vêm é a bunda, enquanto o faro e audição adequados se encarregam de guiar sua locomoção.
Cento e cinquenta metros e aproximando da bunda. O assassino de Trittenbourg desvia de um ônibus sem nem olhar para ele e acelera o passo. O vento está na direção contrária, de forma que ele pode sentir o cheiro da vítima, mas ela não sente o dele.
O assassino é esperto, sabe todas as técnicas de caça. Cem metros e ele vê a bunda ainda melhor agora. Ele se esfregou em carne morta comprada no açougue para despistar seu cheiro. A calça enterrada na bunda perfumada, quase dá para ver os contornos das pregas quando ela anda. Seria perfeito se ouvesse algo para dividir aquelas duas nádegas, equacioná-las numa balança geométrica para maior contemplação da perfeição.
Setenta e cinco metros e é o dia de sorte do assassino. A vítima encontra uma amiga e pára para conversar. A amiga oferece uma carona na bicicleta. Sessenta metros e ela decide se sentar no quadro da bicicleta para ir com a amiga de carona. O olhar do predador é atento e ele salta um buraco sem nem ao menos olhar para ele. Seus olhos estão focados na bunda enquanto as pernas se abrem para que uma chegue ao outro lado, permitindo poucos segundo de perfeição em que as nádegas ficam totalmente abertas em pleno ar, antes que a perna direta por fim desça novamente do outro lado. A cena daquela bunda aberta e vibrante no ar, semi-coberta pelos cabelos louros compridos, exalando o feminino aroma do chamado, enquanto cada prega aparece ressaltada pela malha colada, fica instantaneamente memorizada no olhar do caçador, olhar que avança e invade sua vítima.
Trinta metros agora e a bicicleta começa a andar. O desejo mais profundo do assassino se materializa, enquanto a barra da bicicleta divide aquela bunda ao meio, uma nádega para cada lado, perfeitamente redondas, perfeitamente simétrico.
Sessenta metros agora e o assassino percebe que a vitória tem um gosto amargo, pois a bicicleta se afasta velozmente. Um guepardo pode correr a 110 km/h e alcançar facilmente uma bicicleta. Mas o assassino não é um guepardo e pára confuso, enquanto a presa se afasta.
Ele precisa de um novo objetivo. Ele fica parado, sem saber o que fazer ou para onde ir. Decide pegar um ônibus, pois os ônibus sempre estão indo a algum lugar. Ele fica alguns minutos no ponto e sente pelos aromas que a estudante está no segundo dia da menstruação, a velha tem um câncer no esôfago e o gordo do outro lado hemorróidas.
O assassino de Trittenbourg é ágil nas idéias e decide atravessar a rua para pegar o ônibus do outro lado, indo no sentido de sua presa, para ultrapassá-la e surpreendê-la.
O assassino atravessa rememorando a visão do instante de perfeição em que seu alvo se expusera para ele nos ares, como um canto da sereia. O que ele não viu foi o caminhão que vinha na outra pista e o acertou em cheio.
Seu corpo voou trinta metros e aterrisou no asfalto, quebrando a caixa craniana e espalhando a massa encefálica por um longo rastro sangrento. A vida em sociedade é a negação do sujeito até suas últimas conseqüencias. Quando um predador surge no meio do rebanho, é logo aniquilado, psicologicamente ou fisicamente.
O rebanho segue seu caminho, horrorizado com a cena sangrenta e repulsiva de mais uma vítima fatal da violência urbana.


 Escrito por Fonjic às 00h51 [ ] [ envie esta mensagem ]