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Uretrite: contos de Fonjic
 

tem dias que dá um desânimo...


Deve se algo no sangue, ou no DNA, ou mero acidente no desenvolvimento ontogenético... não sei. Alguns seres são desviantes das curvas normais em um ou outro aspecto. Eu, no meu caso, em dois, pertenço aos 20% da humanidade que são canhotos e aos menos ainda que isso que preferem viver de noite do que de dia.
Tenho em meu sangue a herança dos antigos reviradores de túmulos, sonâmbulos insanos, bebedores de rum 98% e vigias noturnos.
Quando vagávamos pela África em bandos de caçadores-coletores, eram os de minha estirpe que passavam a noite em claro, excitados pela luminosidade da lua cheia ou a escuridão da lua nova, e que davam o primeiro alerta quando surgia um predador.
Somos, portanto, assim como os demais grupos desviantes normalmente são, essenciais para a sobrevivência da restante maioria.
No entanto, é claro, todo grupo desviante é mal-visto por seus contemporâneos. Posso até ver meu pobre antepassado primitivo, o dia inteiro dormindo e comendo às custas dos que saíam de dia para caçar, salvando as vidas de todo o bando a noite, no entanto sem ser nunca agradecido ou reconhecido. É sempre o anônimo inútil que salva o bando.
É claro que surgiu ali, nesse anônimo desvalorizado, o primeiro misantropo de nossa história, que vem transmitindo de geração em geração esse legado secreto, essa coisa que nos une, que é o ódio por nós mesmos.
Heinrich Severloch, oficial nazista que matou mais dois mil soldados americanos, o que lhe valeu o título de “a besta da praia de Omaha”, acabou no fim da vida fazendo grande amizade com os veteranos do exército inimigo ao seu. É a melhor e mais franca amizade que pode haver, pois você sabe que seu inimigo é seu inimigo, logo por pior que ele faça, nunca te desapontará. O ódio é a mais poderosa união da humanidade.
E não há ódio mais justificado que o ódio aos seus semelhantes, à humanidade pusilânime que rasteja pelo mundo e dentro de nós. Ódio à própria vida, que levou nossa estirpe a mudar de função na cidade.
Não temos mais os tigres nos atacando de surpresa, nem monstros imaginários da escuridão. Ficamos sem função na noite e por um bom tempo pudemos divertir os taberneiros e encher de alegria os bares do mundo.
Mas com o tempo os bares se vão e restam apenas os cemitérios para acolher os transeuntes na madrugada fria. Com o tempo os amigos boêmios se morrem e deixamos de bater em suas casas às 4 da manhã para começar uma festa, para invadir cemitérios às quatro da manhã e vomitar em seus túmulos.
Sim, é isso que restou de minha estirpe, reviradores de tumba que andam desnorteados de cá pra lá, sem o brilho daqueles que outrora garantia a segurança noturna da humanidade. Só o que mantivemos foi o estatuto de párias.
Porém, por um lado, se fomos nós que anonimamente salvamos tantas vezes o bando de humanos perdidos na embriaguez do sono, certamente temos ainda um papel a desempenhar. Pois se reviramos túmulos agora, é porque eles existem mais do que nunca antes. E cada cova aberta fede. Os generais se aposentaram e estão dormindo com seus pijamas de pom-pom, mas os corpos dos que eles mataram continuam a brotar. Somos nós mesmos que morremos, mas insistimos em viver, descarnados. Que cada zumbi acorde seu vizinho de cova, para começarmos a festa deglutidora da humanidade...


 Escrito por Fonjic às 02h04 [ ] [ envie esta mensagem ]