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Uretrite: contos de Fonjic
 

in ars crapulat

Lá estava eu novamente, na fila do abatedouro, correndo atrás de papeizinhos e bilhetinhos que pudessem me valer pontos para conseguir um emprego ou bolsa. Que coisa odiável se tornara essa coisa de currículos.
Quer dizer, currículos de verdade ainda tinham sentido, o que não era o caso de currículos acadêmicos. Na falta de publicações internacionais ou qualquer coisa realmente relevante de se mencionar, a briga era por papeiznhos que comprovassem qualquer coisa.
Tíquete de estacionamento, 1 ponto. Palestra assistida, 1 ponto. Recibo de emola pro mudinho distribuindo papel higiênico no banheiro, 1 ponto.
Simplesmente um terror inconcebível. O fim de toda paz mental e concentração necessários à qualquer esforço sério de pesquisa. Nunca a literatura e os livros foram tão desprezados em uma instituição que deveria se interessar por eles.
Leitura da Teoria do Romance de Bahktin, 0 pontos. Comprovante de ter assisitido à palestra "Transverticalidades na sexualidade germânica do século XVII", 1 ponto. Leitura de todos os volumes da Comédia Humana, 0 pontos. Freqüencia no mini-curso de 2 horas "Reprodução assistida ou assistência reprodutiva: análise pós-comparativa das profissões de médico de fertilidade e contra-regra de filme pornô", 1 ponto.
Assim ia. Eu resistia o máximo que podia àquele influxo de distrações e futilidades, mas eu precisava do dinheiro, precisava me render aos burocratas da academia, que queriam claque em seus eventos. Afinal, livro não emite papelzinho no final da leitura para servir de comprovante.
De modo que descobri que o grande lance para ser um pesquisador seria deixar de ser pesquisador. Abandonar num canto mofado aqueles livros e teses todas e começar a frequentar colóquios completamente inúteis, que só tinham público por causa do papelzinho que davam.
Depois de aprender sobre a sexualidade germânica e práticas cinematográficas, achei que era hora de procurar outros cursos, afinal, talvez isso fosse um problema apenas localizado, não de toda a academia. Assim, no centro de ensino pude ouvir a impressionante "Por uma nova pedagogia: como combater a masturbação nos jovens colegiais", 1 ponto.
Mas não valeu a pena, parecia um interminavel sermão de igreja. Os cristãos estavam pondo as mangas de fora e invadindo todas as áreas, sem nenhum respeito pelo saber de verdade.
No núcleo de promoção da transdiciplinaridade, nova chance. Assisti ao colóquio "O avesso do avesso ou o outro do outro? abordagens multiperspectiva na paralelidade contemporânea", mais 1 ponto, embora eu tenha saído com a mesma dúvida que entrara... que raios é isso?
Enfim, descobri que havia um reprsentante discente no Conselho da instituiçõa e que, através dele, poderia se tentar algo, embora dificilmente uma mudança realmente ocorreria. Precisava, então, ser algo sutil e inútil, senão jamais seria ali discutido. Tive a brilhante idéia e conseguimos passar um projeto vinculando o Bar do Peruca como núcle de estudo urbano, agora cada nota fiscal de cerveja tomada vale um ponto.
E assim, novamente, a paz se restaura no mundo.



 Escrito por Fonjic às 04h26 [ ] [ envie esta mensagem ]



Doce Acre

Desço do avião cansado, depois de um dia inteiro de viagem. Respiro o ar da cidade. Tudo mudou, mas parece tão igual quanto antes.
Doce Acre, eu precisava por algum motivo urgente revê-lo. Inventei algo para minha mulher sobre um capítulo do romance que eu estava escrevendo. Despedi-me dela e da minha filha como se nunca mais as fosse ver.
Doce Acre, onde passei os anos felizes da infância. Onde conheci o calor e a tempestade. Onde vi pela primeira vez um buceta. Onde assisti Tubarão. Onde um garoto sem camisa de quatro anos podia se aventurar numa selva cheia de cobras de três metros e alguns jacarés, mas não sem levar uma boa surra dos pais depois.
Alguma coisa me chamava de novo para aquela terra exótica, aquele pedaço da Bolívia anexado ao Brasil. Mal chego no aeroporto de Rio Branco e aparece um garoto. Deve ter uns seis anos.
Não sei exatamente de onde surgiu, só sei que, quando notei, andava ao meu lado. Silencioso, descalço, pálido demais. Lembrava um pouco de mim quando era criança.
Talvez fosse isso, minha infância aparecera ao meu lado. Usava uma camiseta e uma bermuda apertada. Parecia triste, melancólico, resignado. Olhava pra mim e sorria com tanta sinceridade que eu me sentia angustiado e culpado.
Ninguém parecia ver o garoto. Pensei em perguntar ao segurança do aeroporto se ele via alguém ao meu lado, mas não quis tornar pública minha loucura
Andamos calados pelo centro. De alguma forma eu me sentia bem ao seu lado, como se ansiasse por revê-lo. Não tínhamos nada para nos falarmos. Passamos pela praça, fomos a sorveteria onde eu ia com meus pais tomar um banana split.
A década de oitenta foi um momento de singular estranheza no mundo. Óculos gigantes, roupas espalhafatosas, bijouterias. Parece a década em que se resolveu reunir todas as cafonices do século e concentrá-las.
Eu tomo um chope enquanto o garoto assiste o sorvete a sua frente derretendo. Ela não o toca, mas parece feliz com o presente. Sinto uma paz desagradável com isso. Uma felicidade que me entristece.
Termino o meu chope e sinto as ondas de calor que flutuam no ar me embalarem. Apago na mesa. Acordo suado horas depois e encontro todos mortos. O sorveteiro, os clientes, o garoto. É como um filme mofado dos anos oitenta. Nas mãos ensanguentadas do garoto encontro uma cópia do O campo de batalha sou eu, romance de 67 de Fausto Wolff.
De alguma forma aquilo parece se encaixar na cena. Talvez seja o efeito do romance em mim que me levou àquele lugar e matou toda aquela gente. Bato com raiva no corpo morto do garoto. Corro para a noite abafada que faz lá fora, até uma velha seringueira. Começo a esmurrá-la. Até que saia sangue dos dedos e até que saia seiva da árvore.
A seiva se mistura no sangue enquanto eu fico imóvel, com a mão encostada na árvore esperando o látex sangrado secar. A ambulância vem e me leva. Uma chuva de verão cai com força absurda durante quinze minutos, mas depois o tempo abre como se nunca tivesse chovido. Em alguns dias já estou bom para voltar pra casa.
Doce Acre, como uma lembrança que não se quer esquecer, ao mesmo tempo em que se procura apagar. Uma lembrança que se deseja nunca ter tido, mas se se aferra a ela como um mal necessário. Doce Acre.


 Escrito por Fonjic às 04h20 [ ] [ envie esta mensagem ]