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Uretrite: contos de Fonjic
 

Espasmo

            Foi quando entrei no ônibus que senti aquela tontura e desorientação espacial semelhante a um chute nas partes baixas. Uma deusa romana ancestral em azul, verdadeira diva, imortalização na carne do ideal de beleza dos homens. Usava um vestido curto que deixava à mostra as belas pernas tatuadas com tribais. O azul do vestido era daquele tipo de azul profundo, que você sente se afogar nele quando olha.

            Foi isso, como um afogamento, fui arrastado cada vez mais para o fundo. Ela olhou nos meus olhos e tive certeza que aquela mulher estava, também, condenada a implorar por mim.

            Fui para o fundo do ônibus e peguei um lugar onde pude observá-la de pé. Tinha uma tatuagem de Kali nas costas, a deusa indiana da morte e da fertilidade. No ombro um dragão tatuado e na frente do vestido o decote mais generoso já concebido na humanidade, que eu tinha certeza que ela usava especialmente para mim. Era a mulher mais perfeita do mundo e eu sorria por ter sido agraciado com ela.

            Entrei num estado de transe, misto de sonho e delírio no meu assento do ônibus, onde eu imaginava o resto da vida que passaria ao lado daquela mulher, os elogios incansáveis que ela me faria, a forma como ela imploraria pelo meu amor toda vez que eu ameaçasse deixá-la. Ela era como a Camila que John Fante inventara em seu livro. Era isso: John Fante completaria cem anos em 2009 se estivesse vivo, era uma espécie de presente cósmico que eu recebia do universo por ter sido tão fiel leitor.

            Enquanto eu sonhava acordado no meu assento emiti, por certo, alguns grunhidos, o que fez as pessoas ao meu redor se afastarem. Ela desceu do ônibus. Desci e fui atrás, seguindo-a com uma prudente distância na rua, uns trinta metros. Ela fingia não me ver, mas pude perceber, de relance, que volta e meia ela disfarçadamente me olhava, fingindo um olhar distraído e assustado.

            Chegou numa bela casa e entrou. Acompanhei com o olhar o andar rebolante enquanto subia os degraus da entrada e sumia lá dentro. Eu finalmente chegara lá, encontrara a felicidade, e ela em breve imploraria para que eu ficasse ao seu lado e nunca mais a deixasse, sob risco de ela morrer de tristeza e saudades por mais breve que fosse minha ausência.

            Eu me preparava para ir até a casa quando um carro de polícia parou na frente do local. Ela saiu e me apontou para os policiais, que vieram em minha direção. Corri como um louco selvagem, pulando muros, entrando em becos e fugindo desesperadamente.

            É triste como o amor pode acabar de forma tão súbita nos dias de hoje.



 Escrito por Fonjic às 17h54 [ ] [ envie esta mensagem ]