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Nas trevas
Era uma ruiva com cabelos de fogo, que parecia incendiar tudo que via. Um fogo que a fazia devorar as pessoas, uma após a outra. Fixada em música, vivia me pedindo que lhe ensinasse os acordes básicos, até o dia que aceitei e ela veio e passamos a noite toda fazendo não só os acordes básicos, mas uma verdadeira sinfonia, que me deixou verdadeiramente esgotado. Ela foi embora de manhã cedo enquanto eu dormia e não nos falamos por um bom tempo. Eu tinha uma vida feliz e serena, estava destinado a ganhar o prêmio Nobel antes dos trinta anos. Qualquer um deles, não me importava muito qual. Foi quando um mês depois ela me liga e deixa um recado na secretária eletrônica: “Alô, Fonjic, alô? Você não tá aí, é? Então tá, eu fiz o teste deu que estou grávida, acendeu uma luzinha verde, ficou piscando e tocou um sininho, blim blim blim. Liga pra mim!” Entrei em pânico. De início achei que fosse uma brincadeira, a coisa toda era muito absurda. Mas depois fiz as contas e vi que o tempo fechava. E mais, eu sabia que meu azar era superior a qualquer força da natureza e, se fosse para acontecer com alguém, aconteceria comigo. Ela morava num recanto afastado de Santo Amaro da Imperatriz e assim que ouvi a mensagem peguei o último ônibus da noite. Eu precisava falar com ela. Desci no centro do município, sem a menor idéia de como chegar à casa dela. Fui até uma vendinha e consegui que um sujeito me levasse até o endereço em seu passat velho por vinte pila. Entramos numa estrada sem iluminação ou calçamento, só mato e comecei a ficar inquieto. Lá pelas tantas o motorista desligou o carro e disse que ia lá na frente consertar o motor. Escuridão total, no meio do nada. Eu sabia o que ele era: caçador de humanos. Logo ele tiraria debaixo do capô uma motosserra e me despedaçaria. Era uma grande armadilha e eu sabia que não podia esperar, abri a porta pulando fora do carro, rolando por barranco de uns cinco metros de terra. Ouvi os gritos me chamando e, quebrado e sujo como estava, saí correndo. Eu havia visto todos os filmes de giallo do mestre Dário Argento e sabia todas as formas macabras de torturas que ele me infligiria. Entrei num milharal, apavorado, suando no ar frio da noite e corri até o amanhecer. Por sorte fui parar bem em frente à casa da ruiva. Estava todo doído, acabado e enlameado, mas ao menos estava vivo. Toquei a campainha e ela abriu a porta, horrorizada com meu estado. “Você está grávida?” perguntei, antes mesmo de cumprimentá-la. “Ah, seu tanso, era só uma piada. Anda, entra, vamos tomar um café”.
Escrito por Fonjic às 16h39
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Alice
Entrei na casa e fui atingido de imediato pela vivacidade das cores. Um turbilhão de tonalidades parecia mover-se nas paredes. O dia estava quente e dentro da casa tudo que havia era o longo e flutuante corredor. Apoiei-me sem ar num canto e uma sensação de vertigem logo se apossou ainda mais de mim. As paredes pareciam moles, pareciam mover-se, tocá-las era como tocar um pedaço de carne flácida suada, borracha derretendo. O longo corredor ondulava, como ondas de calor subindo no asfalto. Milhares de cores o percorriam, misturando-se em redemoinhos, num incessante modificar-se. Era impossível fixar a vista num ponto, era impossível dizer se eram as cores que deslizavam pela parede ou as próprias paredes que deslizavam sobre si mesmas, serpenteando. Passo a passo fui tentando lentamente ganhar meu caminho em frente, desorientado. Uma grande mancha amarela parecia avançar em direção a uma explosão azul. Como milhares de cobras lutando, as cores se enrolavam, enroscavam, misturavam, fundiam-se criando novas cores nunca vistas antes, para em seguida chocarem-se com uma nova explosão, dessa vez vermelha, surgida em outro lugar. Eu não podia entender o que estava acontecendo, a atmosfera se tornava intoxicante e aquele excesso de cores e psicodelia me faziam sentir imerso em uma canção antiga de Jefferson Airplane. Lá no fundo do corredor eu podia vislumbrar Alice de pé, olhando fixamente para mim. O corpo dela também ondulava, vibrava, parecia ser parte daquela casa. Somente o rosto estava fixo, imune ao caos, pálido, sem expressão, olhos vítreos fixados em mim, enquanto eu avançava tentando sem sucesso emitir algum ruído. Cada vez mais meu progresso era diminuído, as cores subiam pelo chão enroscando-se em meus pés e pernas. Meu próprio corpo parecia ondular e tornar-se parte daquele delírio acordado. Os pés de súbito já não saíam mais do chão, grudados, soldados, imersos de vez naquela armadilha sensorial. Puxei com força a perna, sentindo-a esticar-se e por fim partir-se, na altura do tornozelo. Continuei caminhando com o toco das pernas e olhei pra trás uma última vez para ver meus pés dissolverem-se, tornando-se parte daquele todo. Olhei em frente e o corpo de Alice era agora o de um grande gafanhoto, ao longe. Seu rosto continuava imóvel e suas patas seguravam uma xícara de chá, quando caí e fui logo sendo sugado, dissolvendo-me, tornando-me parte das cores, tornando-me chão, paredes, a casa, tudo e, finalmente, nada.
Escrito por Fonjic às 22h31
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