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Caçadores de humanos
Eram os anos 90 quando vi surgir em mim certo chamado das selvas. Não sei se foi o cenário político em que acabávamos de tirar do poder um presidente que tentava privatizar e vender tudo que era público ou os livros do comunista subversivo Jack London. O fato é que eu passei boa parte da década me metendo onde tivesse ainda alguma mata nativa na região. No Cambirela passamos tardes lendo Augusto dos Anjos e Casto Alves. No Maciambú nos perdemos no meio do mato e ganhamos comida de uma família de índios que nem falava o português. Mas era nas matas desertas do Rio Vermelho e na imensidão isolada da praia de Moçambique que gostávamos mesmo de estar. Aquele cenário de filmes de terror era propício para contarmos histórias macabras à noite, completando com um banho de mar gelado no meio da madrugada, com roupa e tudo, bem na parte onde a correnteza era mais perigosa e as ondas violentas. O motivo desse longo prelúdio é que fiquei devendo a vocês a explicação sobre os caçadores de humanos. Quem são eles? O que são? Como vivem? Como agem? Como os descobri e sobrevivi para contar? Era madrugada em noite de lua nova, o que quer dizer que aquela mata fica tão escura que não se consegue enxergar a própria mão ao esticar o braço para tatear o caminho. Ainda assim eu e um amigo atravessamos o matagal, sabendo o caminho de memória, e chegamos à praia. Lá começamos a gritar, desafiando aquela imensidão de escuridão e areia que é a borda do oceano à noite, nosso insignificante lugar como humanos dentro da vastidão do mundo natural, quando notamos uma forte luz no céu. Começamos a gritar e pular na areia. A luz se projetava de um ponto na praia distante uns seis quilômetros. Focaram-nos por uns 10 segundos um imenso e forte holofote. Então a luz desviou novamente para o alto e começou a se deslocar, vindo em nossa direção. Corremos para a estrada de terra paralela à praia e os vimos passar: uma enorme caminhonete branca, com muitas armas à bordo e um enorme holofote em cima, que por causa da escuridão parecia se guiar sozinha, sem nenhum ocupante. Ouvimos ruídos inumanos e gritos terríveis mais tarde. Sabíamos, como numa história de Lovecraft, que só poderiam ser criaturas indescritíveis, inomináveis, dotadas de linguajar impronunciável. Era carne humana que procuravam e passamos aquela noite escondidos no meio do mato, sem arriscar a sorte. E até hoje sei que vasculham por lá na madrugada, ainda tentando nos encontrar...
Escrito por Fonjic às 13h05
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