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Corredeira
Visitando os parentes em Governador Celso Ramos foi que ouvi do seu Zezo, um pescador, a chave para a compreensão da vida. Diz ele sempre que quando os maratonistas de uma prova atlética estavam pra partir, um pescador lá no meio falou: vamos todos correr, mas só um será vencedor, por que não paramos então para conversar?” Seu Zezo nunca nos revelou o que aconteceu depois disso e sempre que eu pergunto ele muda a conversa para como vai ser a pesca da tainha neste ano, ou do camarão, ou da lula... A verdade é que seu Zezo conseguiu entender a essência que distingue o pescador do ser urbano apressado. O pescador vive dos ciclos da natureza, é como as marés, as estações do ano, os cardumes. O grande negócio do pescador não é a arte de lançar a tarrafa, nem a barganha no preço do pescado, mas sim a compreensão do ciclo natural do mundo ao redor. Uma vez compreendido e interiorizado, esse ciclo se torna mais do que aquela informação essencial da pesca, onde vai dar boa a tarrafada neste ano, se o frio vem mais cedo ou mais tarde, as ondas, os ventos. O pescador artesanal vive dos ciclos e passa a entender que faz parte também deles, que tem seu próprio lugar na ordem natural do mundo. Que embora ele triunfe sobre o cardume, depende deles para sobreviver. É o oposto da pesca predatória que precisa retirar o máximo da água para maximizar o lucro, até que os cardumes estejam extintos e o próprio negócio acabe. Ou da pessoa que desde cedo tem que estudar para ser o primeiro aluno da turma. Mas então descobre que essa é uma corrida difícil de vencer, que ele terá que ser também o primeiro nos exames, e vai ter que correr mais rápido que isso, terá que ser o primeiro no emprego para não ser demitido e passar fome, terá que ser o primeiro entre os vizinhos, o primeiro a ter tevê de plasma, o primeiro a ter geladeira com DVD embutido, o primeiro a ter o último lançamento do supérfluo indispensável. E ele estufa então o peito, orgulhoso pelo trajeto percorrido, mas descobre que por mais que tenha corrido há muitos corredores ainda ao lado dele e ele precisa correr mais e mais para chegar em primeiro. É preciso abandonar o último resto do humanidade e virar a máquina perfeita de correr e matar. E todos os anos ainda ligo a tevê para ver as grandes corridas. Com expectativa crescente espero o momento da largada quando, para minha decepção, logo dado o sinal, saem todos correndo, apalermados. Desligo triste sabendo que falta muito ainda para eles compreenderem.
Escrito por Fonjic às 03h16
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