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Uretrite: contos de Fonjic
 

Brilho eterno de uma vulva sem lembrança

 

            É o último minuto da última música do último bar aberto da noite. Eu tomo o último copo de cerveja enquanto escuto as últimas palavras da música de Laura Leather ecoando no ar.

            Há algo de surreal na noite quando as pessoas já estão cansadas e bêbadas. Um sujeito que passara a noite inteira comportado vai aos poucos surtando. Ele tira uma boina do exército e começa  a falar da vida na caserna. Ele veste a boina. Fala da paixão por rock japonês. Tira uma farda e começa a andar pelo bar todo fardado, como se estivesse pronto para uma operação na selva. Ele diz que o nome dele é soldado Banzai.

            Laura Leather sorri enigmática. Ela usa uma calça de couro com saia de colegial por cima. Uma blusinha de colegial justa com uma sobretudo de couro tapando a saia e a blusa. Uma escultura viva de couro preto que se destaca do resto do bar como uma grande amaryllis vermelha sobre um fundo azul. Os lábios dela são largos, amplos e úmidos, vermelhos de um tom vulváceo profundo.

            Um tipo meio hippie metaleiro num canto diz que se chama Dudu Downtown. Ele veste um jeans preto com camiseta preta e botas curtas de couro pretas, dessas de peão de construção. Ele canta raulzito e emborca todos os copos que passam pela frente. É de longe o mais bêbado de todos.

            Uma das freguesas passa em revista as garrafas abandonadas nas mesas juntado as cervejas quentes de diversas marcas e distribuindo aos poucos clientes ainda no local.

            Banzai Boy, o soldado, começa a cantar o hino nacional e o dia desiste de amanhecer. Convencemos o dono do bar a adiar o fechamento e liberar mais uma rodada de cerveja. Ele aceita e garrafas começam a surgir de todos os cantos, servindo todos os copos. Laura Leather começa a cantar outra de suas músicas, competindo com o garoto Banzai que canta o Hino da Bandeira e Dudu Downtown que canta “Por quem os sinos dobram”, outra clássica de raulzito.

            Somos por fim expulsos do bar e saímos zanzando pelas ruas de uma floripa deserta entorpecida de sono e cansaço e suor. “Somos uma porra de tira de quadrinhos” digo para Laura Leather, que ri e abre o sobretudo, deixando o frio da noite penetrar na roupa de colegial. Banzai Boy ainda fardado e Dudu Downtown por fim desistem de cantar e chegam a conclusão de que somos estereótipos alucinados de uma mente fragmentada.

            Somos o Esquadrão Bizarro, concluiu por fim Laura Leather, quando finalmente surge nos ceús nosso chamado secreto de emergência e partimos correndo para mais um missão.



 Escrito por Fonjic às 09h36 [ ] [ envie esta mensagem ]



Cafezinho

Estou no meio do trabalho concentrado quando o patrão chega no alto do mezanino e grita: “cafeziiiinhoo!!!”. Droga, maldita política da empresa que agora dita que todos devem tomar seu café ao mesmo tempo. Política de estímulo à coletividade transpessoal é o nome que deram. Desde que a tal política do cafezinho começara, eu passava a manhã inteira lendo bobagens para fingir que trabalhava, à espera do momento em que eu pudesse saciar meu vício com uma nova dose de cafeína no organismo.

            Fui até a copa onde os outros já estavam e peguei uma xícara quente e fervilhante do ouro negro. A cafeína é a droga psicoativa mais consumida no mundo. Tomei o líquido quente, que desceu queimando a parede da garganta, o esôfago e chegou no estômago, onde logo começou a ser absorvido. Assim como o álcool e a cocaína, entra na corrente sanguínea correndo acelerada até chegar no cérebro, onde consegue atravessar a barreira entre o cérebro e o sangue.

            Ainda estou lá parado em meio aquela multidão de funcionários quando as moléculas de cafeína começam a se ligar nos receptores de adenosina, neutralizando-a. A adenosina é o neurotransmissor responsável por proteger o cérebro, indicando ao corpo os sinais de fadiga. Quando a suprimimos, a necessidade de descanso continua, mas o cansaço some, de forma que fraudamos o corpo para continuar trabalhando.

            A concentração aumenta, o sono se esvai,  meus batimentos cardíacos finalmente se aceleram. Então a cafeína começa a sua melhor parte, que é sua interação com o ciclo da dopamina, responsável pela sensação de recompensa e desejo, de forma que mesmo sem fazer nada podemos sentir aquela satisfação gostosa de ter sido recompensado por um trabalho bem feito.

            A pegadinha com a dopamina é que ela te ajuda a viciar. Se você ingere cafeína ao trabalhar, sente sensação de recompensa. A idéia por trás de toda essa política era, obviamente, tentar viciar os funcionários no trabalho. Acontece que eu, ao tomar meu café diário, não conseguia parar de olhar para a secretária da empresa, motivo pelo qual o vício do café não se grudou no ato de trabalhar, mas em minhas fantasias com ela.

            Passei a ter sonhos estranhos todas as noites com ela. E passei a tomar mais café, ficando cada vez mais difícil dormir e distinguir quando eu estava acordado ou dormindo, sonhando ou trabalhando.

            Por fim, veio ela emergindo numa onda de vapores oníricos, trouxe uma folha e me entregou. Que sonho estranho, eu disse à ela. Isso não é sonho, se liga, é seu aviso de demissão. No dia seguinte eu estava na fila pedindo meu seguro-desemprego.



 Escrito por Fonjic às 12h55 [ ] [ envie esta mensagem ]