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Monóculos
Devo admitir que Machado é o pai de todos nós. Ele é assassinado diariamente em todas as escolas do país, onde os alunos aprendem a sair de lá o odiando, sem nunca conhecer sua obra. Um dos erros mais estúpidos ensinados em sala de aula é dizer que ele era naturalista ao falar do ato de tirar as botar em um livro. Pelo contrário, é uma das mais cruéis passagens da literatura brasileira, em que ele termina o namoro com uma mulher porque ela tinha uma deficiência física e compara a mulher a uma bota, igualando a alegria de se livrar dela com a o alívio de tirar as botas que apertam o pé. Machado tinha uma ironia ácida camuflada em fraseado calmo, a fina flor de uma técnica inglesa que ele trouxe para o Brasil. Eu mesmo odiei Machado boa parte da vida, não entendia como ele podia dizer umas barbaridades daquelas, pois nem eu nem meus professores sabíamos o que era ironia. Quando descobri foi como uma venda tirada dos olhos. Todo texto do Machado tem várias camadas de leitura, quanto mais aprofunda, mais cruel fica. A transição de império para república, o fato político mais importante de seu tempo, só uma vez é representada por ele, quando o dono de uma bodega muda o nome de Império para República. O resto ficava tudo igual, exatamente o que aconteceu conosco. Mas é nas crônicas que Machado foi ainda melhor, ainda que obra quase desconhecida. Quando da criação dos jogos olímpicos modernos ele ataca dizendo que era uma vergonha botar pessoas na pista correndo como cães, sendo ainda mais sem graça, pois ao menos nos cães se podia apostar. Foi ele quem reparou que não era preciso falar de sua terra para eternizá-la, dando como exemplo Shakespeare, que eternizou o pensamento inglês com seus dramas sobre Dinamarca, Roma, e outros lugares. Ainda mais, Machado foi nosso precursor do Michael Jackson. Não, por favor leitor, não largue a crônica agora ofendido. É que cem anos antes de Michael Jackson ficar famoso e embranquecer, Machado conseguiu o mesmo feito misterioso por aqui. Quando pegamos as fotos dele jovem está com a pele bem negra, o nariz negro etc. A medida que fica famoso os retratistas começam a apresentá-lo mais branco, de nariz mais fino, quase um eslavo. Misterioso fenômeno esse, ainda inexplicado. Reparem que o Obama segue a mesma trilha, já aparece mais branco nas fotos agora do que antes da eleição e em oito anos estará mais branco que o Bush. Admirável era em que vivemos, plena de miragens.
Escrito por Fonjic às 08h50
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