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O cubo
Olhei o cubo cromado em minhas mãos novamente, girando em ângulos que me possibilitassem ver o máximo de faces possível. Havia algo de diferente naquele cubo, mas eu não conseguia precisar o quê. Algo torcido, ou endireitado, ou de alguma forma modificado, sem que se deixasse descobrir. Lembro da fascinação que tinha por ele quando criança, correndo para o bolso do meu pai sempre que ele chegava do serviço para olhar aquele cubo. As faces cromadas refletiam meu rosto, a parede e todo o ambiente iluminado da casa conforme eu o girava. Havia uma estranha admiração infantil ali que com os tempos foi diminuindo e sumiu completamente. Nunca entendi porque meu pai carregava aquela tralha no bolso. Ele nunca falou nada, se era um talismã, uma necessidade inexplicável ou alguma mania esquisita qualquer. Cromocubofilia. Às vezes, quando o trânsito ficava engarrafado, o que pode custar crer, mas, naquela época, não era sempre, ele tirava o cubo do bolso e começava a girá-lo nos dedos. A gritaria das crianças no banco de trás o deixava tonto e ele gritava de vez em quando por silêncio. E o cubo cromado continuava a girar nos dedos, enquanto o trânsito seguia num anda-e-pára terrivelmente lento. Como passei a odiar profundamente aquele cubo. Hoje, quando finalmente vi o cubo de novo, nem acreditei que finalmente chegara a hora de jogar aquela velharia fora. Apanhei-o com firme propósito e foi no momento que já o esticava para seu destino que notei a mudança. Era algo indecifrável, indescritível. Eu tinha plena convicção de que ele mudara, de que estava diferente, embora também notasse que era ainda aquele mesmo, nunca fora trocado. Estou quase duas horas girando e aguardando e girando e observando e girando e girando e nada. Quanto mais eu olho e percebo este ou aquele detalhe, mais me perco em minha tentativa de elucidar o mistério. Continua brilhante como novo, com suas faces polidas, bem cuidadas, sem nenhum sinal de ferrugem ou desgaste com o tempo. Há alguma profundidade ou largura a mais ali impossível de ser percebida. Estou ainda concentrado no cubo quando o funcionário vem e me diz: “o corpo está pronto”. Pode despachar, respondo. “É seu pai?”. Sim, afirmo. Ele me pede para assinar uma pilha de papéis e se vai. Eu olho o cubo mais uma vez, tentando identificar o que tão sutil ali se modificara que não parava de me atrair a atenção. Guardo ele no bolso e vou para o velório.
Escrito por Fonjic às 12h13
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