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Lógica euclidiana
Estava eu lendo o tijoladas do mosquito, que é o blog mais processado e censurado dos últimos tempos, e pensando nessa nossa vida republicana. O blog faz parte de uma verdadeira transformação cultural em que os sujeitos deixam de ser espectadores passivos das notícias filtradas e podem eles mesmos postar, debater, denunciar, tomar a palavra e ouvi-la. É a Ágora ateniense versão digital, por isso mesmo é o verdadeiro horror dos políticos que querem a censura a todo custo. É talvez a chance de fazermos nossa república começar a ser república e nossa democracia se tornar mesmo democracia. Há cem anos atrás, num triste quinze de agosto de 1909, morreu assassinado um dos maiores entusiastas da nascente república, Euclides da Cunha, que logo se decepcionaria com o rumo das coisas, incorporando velhos clientelismos da monarquia ao invés de os abolir. Ponto alto da expressão de Euclides da Cunha é quando ele, em protesto contra a monarquia, se adianta entre os demais alunos da academia militar e quebra a própria espada na frente do ministro da guerra. A República veio, mas os velhos senhores coloniais continuaram mandando. A igualdade também não veio, ficou no papel, com os pobres sendo despejados à força para a periferia, na criação das favelas. O judiciário que deveria atender igualitariamente a todos, independente de raça ou credo, ainda hoje ostenta símbolos religiosos nos tribunais, atentando contra a separação entre o público, o Estado, e o privado, a crença religiosa, o que motiva inúmeros processos, o mais recente do ministério público federal contra o judiciário paulista. A versão oficial de que Euclides da Cunha morreu num duelo com o amante de sua esposa ainda hoje é contestada pela família. Os descendentes argumentam que não houve duelo algum, pois o amante havia sido avisado que Euclides ia à casa dele e, junto com seu irmão, se postaram armados e escondidos na casa, esperando que Euclides entrasse para ser morto sem chance de reação. Não se tratou então de um romântico duelo de pistolas, como quer nosso anedotário nacional, mas sim de uma emboscada em que a vítima foi executada sem chance de reação. Euclides morreu como viveu, de forma dramática. É um caso formidável de como a vida e obra se misturaram, imaginação e realidade é inseparável nos seus relatos de guerras e expedições. Mais ainda, espelhou o destino de nossa pobre república, emboscada e assassinada sem chance de reação logo ao chegar.
Escrito por Fonjic às 13h11
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