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Uretrite: contos de Fonjic
 

Heptaedro

            Lembro de muita coisas dessas idade, dos sete anos, embora boa parte das lembranças sejam confusas. Lembro da minha professorinha de português, uma das minhas primeiras paixões platônicas. Acho que é um velho golpe pedagógico botar professorinhas jovens e bonitas para dar as aulas em séries iniciais de crianças, assim desde cedo elas associam estudo com beleza. É claro que alguns anos depois chegará a adolescência, então normalmente se some com as professores jovens e bonitas, senão ninguém consegue se concentrar na aula tentando desesperadamente enxergar por baixo da saia ou através da calça da professora. É quando chega a hora das professoras mais velhas trazerem sua sabedoria de museu e inibir os anseios da turma.

            Lembro dos álbuns de figurinhas. Minha nossa como eu era fascinado por elas. Alguns dos álbuns guardo até hoje, como um de ficção científica barata em que vinham várias raças alienígenas, seus planetas e armamentos.

            Lembro da enchente no inverno, do frio e da chuva que pareciam durar meses. Lembro de ir pegar o ônibus para escola no meio do nevoeiro denso da madrugada. Lembro do trajeto do veículo, sempre o mesmo por onze anos. Lembro de um belo Landau que havia na frente de uma casa. Os anos passaram e ninguém nunca moveu o carro, que foi ficando velho, gasto, tomado pelo mato, com os vidros quebrados, por fim enferrujado. Confesso que nunca entendi aquilo e é um dos mistérios de minha infância, quem deixaria um carro apodrecendo na frente de casa sem movê-lo por uma década?

            Lembro dos muros escritos “diretas já”, movimento que não conseguiu as diretas mas foi essencial para nos livrarmos de vez dos generais ditadores. Lembro em especial de um muro na agronômica em que o proprietário apagou umas três vezes a pichação, pintando por cima, até que o movimento já havia crescido e ele deixou ficar.

            Lembro de jogar bola, taco, passar doze horas por dia em cima da bicicleta, de ganhar meu atari, de viver me arrebentando e indo pro hospital, de adorar zanzar no mato que na época havia perto de casa, de não ter a menor preocupação com o futuro, de uma admiração desmedida por meu pai e minha mãe, de meus avôs e avós todos vivos, e hoje todos mortos, de uma época especial.

            Todas essas memórias pus num livro que entreguei para o estranho, que as perfurou com a foice e disse que agora estavam perdidas para sempre. Nova metodologia da casa, disse ele numa gargalhada enquanto sumia no ar.



 Escrito por Fonjic às 18h12 [ ] [ envie esta mensagem ]